São mães buscadoras como as do México. Mas elas não escavam a terra com a esperança de encontrar os corpos dos seus filhos. Estes foram tragados pelo sistema penitenciário de El Salvador.
- Role, Correspondente da BBC News Mundo em Los Angeles (EUA).
- A mãe que viralizou ao correr descalça (e vencer) uma corrida para poder comprar o material escolar da filha.
- Por que as mortes por overdose de fentanil caíram vertiginosamente nos EUA.
- Uber é condenada a pagar R$ 205 milhões à família de jovem que morreu na Califórnia depois de motorista a abandonar na rodovia.
- O 'verdadeiro Indiana Jones' que achou uma antiga cidade perdida dos incas: 'Não podíamos acreditar no que estávamos vendo.
- 00:27Play Vídeo, Passageiros entram em pânico após teto de avião desabar em pouso de emergência, Duration 0,27.
- 01:25Play Vídeo, Quem se beneficia com voto branco e nulo?, Duration 1,25.
- 02:48Play Vídeo, Como a ditadura e a crise da aids influenciaram a estética dos anos 1980, Duration 2,48.
- 01:23Play Vídeo, Flávio Dino: 'Há mensagens dos ministros Fux, Kassio e André. Onde vamos parar?', Duration 1,23.
- 02:49Play Vídeo, Cármen Lúcia diz que crise no STF causa 'mal-estar cívico' no país, Duration 2,49.
- 01:21Play Vídeo, 'Não aponte o dedo pra mim': o embate entre Gilmar Mendes e André Mendonça, Duration 1,21.
- 01:45Play Vídeo, O bate-boca entre Alexandre de Moraes e André Mendonça no STF: 'Quem tem medo da Polícia Federal?', Duration 1,45.
- 02:31Play Vídeo, Ela postou sobre festa de Daniel Vorcaro e teve conta derrubada: 'Só agora entendi tudo', Duration 2,31.
- 01:34Play Vídeo, Como crise envolvendo Alexandre de Moraes prejudica Lula, segundo analista, Duration 1,34.
- 00:32Play Vídeo, Trem na Ucrânia é atacado pouco após passagem de enviados europeus, Duration 0,32.
- 00:36Play Vídeo, Drones 'recriam' Torres Gêmeas nos 25 anos do 11 de Setembro, Duration 0,36.
- 02:16Play Vídeo, Dinheiro de Vorcaro e quem mais? As suspeitas da PF sobre 'Dark Horse', Duration 2,16.
- Documentário BBC: O outro lado da guerra das facções em El Salvador26 agosto 2026.
- Como é viver em El Salvador após Bukele derrotar facções: 'O medo agora é outro'17 agosto 2026.
- O que aconteceu no país da América do Sul que adotou o 'modelo Bukele' de combate à violência2 agosto 2026.
- Como as megaprisões de Bukele se transformaram em modelo para a direita radical28 junho 2026.
- Bukele: Brasil poderia imitar estratégia de segurança do presidente de El Salvador?8 dezembro 2025.
- Como é por dentro do Centro de Confinamento do Terrorismo de El Salvador21 fevereiro 2024.
- Não tenho notícias dele há quase cinco anos': as mães que procuram seus filhos no sistema prisional do regime de exceção de Bukele em El SalvadorHá 3 horas.
- A guerra pode se espalhar pela Europa. Você está psicologicamente preparado?Há 1 hora.
- Rússia está travando uma 'guerra híbrida' contra a Europa?19 setembro 2026.
- Santa ou pecadora? 10 obras que mostram por que Maria Madalena é uma das personagens mais polêmicas da Bíblia19 setembro 2026.
- Lula está usando reajuste do Bolsa Família como arma eleitoral?19 setembro 2026.
- De 'guardião' da Constituição de 1988 ao centro da política: como o STF ficou tão poderoso 19 setembro 2026.
- Nunca descartaria' possível interferência de Trump nas eleições brasileiras, diz autor do perfil de Moraes na New Yorker18 setembro 2026.
- EUA e Dinamarca fecham acordo sobre a segurança da Groenlândia18 setembro 2026.
- Por que SP já tem setembro mais chuvoso em mais de 80 anos — e chuva deve voltar neste fim de semana18 setembro 2026.
- Mymba Kuéra: como foi o monumental resgate de mais de 30 mil animais durante a construção de Itaipu, entre o Brasil e o Paraguai19 setembro 2026.
- Por que a Flórida é o Estado que mais executa condenados à morte nos EUA18 setembro 2026.
- 6Rússia está travando uma 'guerra híbrida' contra a Europa.
- 7Lula x Flávio Bolsonaro: os 5 grupos de eleitores que podem definir a eleição, segundo pesquisas.
- 9Por que a cafeína deixa algumas pessoas em alerta e outras não sentem nada.
- BBC News, Vá para o conteúdo Seções 'Não tenho notícias dele há quase cinco anos': as mães que procuram seus filhos no sistema prisional do regime de exceção de Bukele em El SalvadorCrédito, Natalia AlbertoLegenda da foto, Marcela Alvarado não tem notícias do seu filho, José Duval Mata Alvarado, desde que ele foi detido, em abril de 2022Article Information.
Desde que o capturaram, não o vi mais. Não sei se ele vive ou não", lamenta-se Marcela Alvarado.
Seu filho, José Duval Mata Alvarado, foi detido por vários soldados no dia 18 de abril de 2022, na comunidade rural de La Noria, em Jiquilisco (sudeste do país).
Ele estava voltando para casa após um dia de trabalho como motorista de trator.
Apesar das suas súplicas, garantindo que era inocente, ele foi levado e acusado de "associações ilícitas", da mesma forma que a maioria dos detidos com base no regime de exceção que, na época, havia acabado de entrar em vigor no país.
O decreto de emergência suspende uma série de direitos constitucionais e é o principal instrumento da política de segurança do governo do presidente salvadorenho, Nayib Bukele.
Com esta medida, o mandatário conseguiu desarticular as poderosas gangues que passaram décadas aterrorizando o país.
Temporário por definição, o decreto vem sendo prorrogado todos os meses há mais de quatro anos, gerando críticas dos grupos de direitos humanos locais e internacionais.
Eles defendem que o estado de exceção em El Salvador gerou detenções arbitrárias e sem ordem judicial.
Crédito, Gentileza Mães pela Liberdade.
Desde o dia em que seu filho foi levado, Alvarado se pergunta como ele estará e se realmente permanece no local onde lhe dizem que ele está preso.
Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
Fim do Promoção Agregador de pesquisas.
Ao longo deste período, dois juízes ordenaram a imediata libertação de Mata. A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) teve acesso às decisões judiciais.
Mas, sempre que sua mãe comparece à Promotoria ou deixa nas mãos do funcionário de plantão na penitenciária um "pacote" com alimentos básicos e artigos de higiene, eles garantem que ele continua atrás das grades da infame megaprisão conhecida como Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot).
Alvarado leva esta dúvida consigo em cada visita. Sua peregrinação já dura quase cinco anos e também a levou a delegacias, tribunais e outros centros de detenção.
Em todos esses lugares, sempre encontro mães que, como eu, perguntam pelos seus filhos", ela conta.
Mães, irmãs, cunhadas, tias, muitas delas muito idosas, anciãs, de todas as idades, na verdade. Mas, quase sempre, somente mulheres.
De tanto se encontrarem, elas foram se unindo espontaneamente, primeiro na região do Baixo Lempa, no sul de El Salvador.
Os grupos se estenderam pelo território do país para se apoiarem mutuamente, compartilhar informações, conselhos e gastos com deslocamentos e acompanharem umas às outras na desgraça e na luta para seguir adiante.
Hoje, elas constituem um coletivo formado por centenas de mulheres, que recebeu o nome de Mulheres pela Liberdade.
O grupo pretende combater o silêncio institucional e o esquecimento, reivindicando o direito à informação, às visitas familiares e a julgamentos justos e individuais para os seus familiares.
Todas nós estamos passando por uma situação muito parecida e, quando nos reunimos, sentimos que a dor não é mais de uma só, mas do grupo", explica Liliana Urías.
Pelo menos a mim, o grupo tem ajudado a seguir adiante, pois antes não conseguia tocar no assunto, nem podia falar do meu filho preso", conta ela à BBC da sua casa em Puerto El Triunfo, no departamento salvadorenho de Usulután (sul do país), onde nasceu o coletivo.
Ela viu seu filho Merlon Urías pela última vez em 30 de março de 2022, três dias depois que a Assembleia Legislativa de El Salvador deu luz verde para o regime de exceção promovido por Bukele.
Ele trabalhava na produção de cana-de-açúcar, tinha 19 anos e uma filha de um ano de idade.
Foi muito difícil vê-lo ajoelhado, com as mãos nas costas", relembra ela.
Só consegui oferecer palavras de consolo, dizendo: 'Não se preocupe, meu filho. Você sabe que não pertence a nada. Ore para Deus e você vai sair desta.
A partir dali, entrei em depressão, fiquei doente", conta a mãe. "Eu não comia, aquilo só passava chorando.
Tudo se agravou quando, um mês e seis dias depois, seu marido, Israel Reyes, teve o mesmo destino. Fuzileiro naval aposentado, ele fornecia transporte particular com sua caminhonete, "velhinha, mas das boas", segundo ela.
Da mesma forma que Alvarado, Urías começou a bater em portas, fazer perguntas em primeiro lugar e, depois, tentar demonstrar, com certidões de antecedentes criminais e outros documentos, que seus familiares detidos não mantinham relações com as organizações criminosas que, um dia, levaram El Salvador à liderança do ranking dos países com maior número de homicídios do planeta.
Atualmente, ela continua visitando todos os meses dois centros penitenciários: La Esperanza, mais conhecido como Mariona, onde foi informada que seu filho está detido; e o de Izalco, onde está preso seu marido.
Às vezes, o guarda da entrada me diz que um ou outro foi trocado de cela e, com isso, fico um pouco mais tranquila", ela conta. Urías se agarra às poucas notícias que teve de ambos desde 2022.
É como ocorreu quando transferiram Merlon de penitenciária. Ele está se movendo dentro do sistema. Por isso, sei que ele continua ali.
Urías afirma que estas informações são mais do que muitas mulheres conseguem obter.
Existem mães que reconheceram seus filhos em vídeos oficiais ou em fotografias nas redes sociais. Foi assim que elas ficaram sabendo de transferências entre penitenciárias ou de passagens por hospitais.
91 mil detidos e julgamentos em massa.
Em Mariona e Izalco, o filho e o marido de Urías aguardam uma terceira audiência, de condenação.
Uma reforma da Lei contra o Crime Organizado estendeu o prazo da detenção provisória e permitiu que os julgamentos passassem a ser coletivos.
Organizações nacionais e internacionais de direitos humanos rejeitam estes processos, que chegam a reunir 900 acusados. Elas destacam que os julgamentos coletivos ameaçam o direito de acesso à justiça e à defesa, além do processo devido, garantidos em tratados internacionais.
A medida é uma forma de acelerar o colapsado sistema judicial salvadorenho e processar os casos de mais de 91 mil detidos e acusados de vínculos com grupos criminosos.
Tudo isso faz parte da "guerra contra as gangues", uma ofensiva que fez o governo Bukele reduzir drasticamente o índice de homicídios no país, mas também deixou El Salvador com um dos índices de detenções mais altos do mundo.
A queda da violência fez com que, em fevereiro de 2024, Bukele fosse reeleito por maioria esmagadora, obtendo cerca de 90% dos votos.
Em entrevista coletiva, o jornalista da BBC Will Grant perguntou ao presidente se, no seu segundo mandato, ele se dedicaria a libertar aqueles que foram detidos injustamente.
Bukele respondeu com uma longa intervenção, atacando seus críticos, particularmente os estrangeiros. Ele afirmou que no Reino Unido, por exemplo, ocorreram erros judiciais importantes.
Segundo o presidente salvadorenho, suas forças de segurança cometeram "poucos erros" e já haviam libertado cerca de 7 mil pessoas. Ele defendeu que suas medidas severas devolveram a calma às ruas de El Salvador e isso, segundo ele, é o mais importante.
A BBC News Mundo entrou em contato com a presidência de El Salvador, pedindo comentários sobre as queixas do grupo Mães pela Liberdade, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Outro dos milhares de detidos nos últimos anos em El Salvador é Cristian Donely Ruiz Pineda, de 45 anos. Ele foi preso na sua casa na ilha Espírito Santo, em julho de 2022.
Somos 350 famílias na ilha e, dentre os que foram levados, 17 pessoas continuam presas", segundo sua esposa, Carolina Martínez.
Crédito, Gentileza Carolina Martínez.
Também continuam na prisão os irmãos Marcos Neftaly e David Ernesto Coreto Martínez. Eles foram detidos em maio de 2022 em Cuisnahuat, no departamento de Sonsonate (sudeste do país).
Neftaly é militar da ativa e tem 24 anos. Já Coreto Martínez tem 31 anos de idade e é trabalhador agrícola.
Foram retirá-los de casa", conta sua irmã, Leyla Arely Martínez. Ela sabe apenas que, depois de passarem por Mariona, os dois estão presos na penitenciária agrícola de Santa Ana, a 62 km da casa dela.
Martínez é uma das 22 mulheres da sua comunidade que fazem parte do grupo Mães pela Liberdade.
Nós oferecemos ânimo umas às outras e, assim, tiramos essa dor que levamos dentro de nós, por não saber como eles estão", contou dela à BBC.
Junto com elas, Martínez tenta participar das atividades do coletivo, que incluem entregar documentos para órgãos como a Direção Geral de Centros Penitenciários, a Procuradoria de Direitos Humanos e a Assembleia Legislativa, além de uma caminhada de três dias até a Casa Presidencial.
Agora, todos os meses, elas se reúnem na praça central de San Salvador. Sentadas nas grades da catedral, as mulheres mantêm uma concentração silenciosa, segurando cartazes com fotos dos seus familiares detidos.
No mês passado, não pude ir porque estava muito doente e não consegui juntar o dinheiro", conta Alvarado.
Quando a data vai se aproximando e não tenho o dinheiro, sinto uma dor no peito e digo para mim mesma: 'Hoje, não vou comer, meu filho.' Você não sabe a tranquilidade que sinto no coração quando consigo levar o pacote para ele.
No seu caso, como o de outras mulheres, quem sustentava a casa era a pessoa que, hoje, está na prisão.
Um relatório publicado pela organização de direitos humanos Cristosal em 2023 (um ano antes do início do regime de exceção em El Salvador) concluiu que as mulheres formavam um dos grupos populacionais mais afetados pelas políticas de segurança do governo Bukele.
Elas assumem a localização dos detidos, o fornecimento de alimentos e medicamentos, os custos judiciais e o cuidado com os menores e idosos. E, na maioria dos casos, elas pertencem às camadas economicamente mais marginalizadas da população.
A economia de El Salvador cresceu 3,9% em 2025, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). O índice é superior à média centro-americana, de 2,6%.
O organismo projeta para 2026 um crescimento do PIB real de cerca de 4,5%, mas estes índices favoráveis não se refletiram necessariamente no bolso dos setores mais empobrecidos da população.
A parte mais pobre de El Salvador foi a mais atingida" pelas detenções, segundo Urías.
Porque ali [nas passeatas e nas portas das prisões] só se vê gente do campo. Foram levadas as pessoas que semeavam a terra, os pescadores, coletores de mariscos e ficamos nós, milhares de mulheres sozinhas.
Desde a criação do coletivo Mães pela Liberdade, as integrantes do grupo enfrentam esta realidade se sentindo menos sozinhas.
Observamos que, juntas, temos mais força para levantar a voz e fazer com que nossos entes queridos não caiam no esquecimento", destaca ela.
No início, havia milhares de pessoas no lado de fora dos centros penitenciários, com a esperança de que eles fossem sair. Hoje, quatro anos depois, não queremos que isso se torne o normal e que eles fiquem esquecidos lá dentro, em alguma cela.
PrisãoAmérica LatinaDireitos HumanosCrimeJustiçaSociedadePular Assista e continuarAssista Fim de Assista.
BBC News, Brasil © 2026 BBC. A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos. Leia sobre nossa política em relação a links externos.
Em números
- Dorenho, suas forças de segurança cometeram "poucos erros" e já haviam libertado cerca de 7 mil pessoas
- Somos 350 famílias na ilha e, dentre os que foram levados, 17 pessoas continuam presas", segundo sua esposa, Carolina M
- S de passarem por Mariona, os dois estão presos na penitenciária agrícola de Santa Ana, a 62 km da casa dela
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…