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Estados Unidos deportam criança brasileira para o Haiti

Menino foi enviado no final de agosto junto com os pais haitianos para o país caribenho em calamidade social

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Os Estados Unidos deportaram uma criança brasileira, um menino nascido em 2021, para o Haiti, um dos países mais perigosos do mundo, onde a violência armada e um Estado falido configuram um cenário de calamidade social.

A história ilustra uma tendência que tende a crescer. Muitas famílias haitianas que vivem nos EUA possuem filhos nascidos no Brasil, dado que viveram por anos no país antes de se mudarem para a América do Norte em busca de melhores condições econômicas.

Há um mês, Washington encerrou o chamado TPS, uma política de acolhida humanitária que permitia a 330 mil haitianos viverem no país —muitos deles chegaram ao país por meio dessa medida durante o governo de Joe Biden.

Os EUA também aceleraram os voos com deportados para o Haiti: antes mensais, agora eles serão semanais.

A Organização Internacional para Migrações (OIM) informou à reportagem que a criança brasileira foi deportada junto a seus pais, eles haitianos. A informação foi corroborada por Nathalye Cotrino, pesquisadora sênior da Human Rights Watch (HRW) que acompanhou a chegada do voo com 57 deportados na cidade de Cabo Haitiano.

A família, formada pelos pais haitianos, o menino brasileiro, um irmão caçula nascido nos EUA e um mais velho nascido no Haiti, era beneficiária do TPS nos EUA e vivia em Nova York, o segundo maior bastião da comunidade haitiana no país depois da Flórida.

Quando perderam o benefício no final de julho, após a Suprema Corte validar a decisão do governo de Donald Trump de encerrá-lo, tentaram emigrar para o Canadá, onde pediriam asilo.

No entanto, foram detidos e enviados de volta para os EUA, quando passaram para a custódia do ICE, a agência de imigração, e foram posteriormente deportados para o Haiti.

Naquele mesmo voo com o menino brasileiro estavam outras três crianças que não nasceram no Haiti: seu irmão americano, uma outra criança nascida nos EUA e, por fim, uma outra nascida no Brasil.

Neste último caso, o de uma menina nascida em 2015 no país, porém, a família não é considerada como deportada. Isso porque o pai, haitiano, explicou que havia aceitado o chamado retorno voluntário oferecido pelo ICE.

Irritado, o pai dizia que nunca recebeu esse dinheiro, de acordo com relato da conversa que Cotrino, da HRW, teve com ele pouco após a família desembarcar do avião.

A família que optou por voltar ao país procurou a Embaixada do Brasil em Porto Príncipe para pedir ajuda. O Brasil lhes informou a documentação necessária para que possam obter vistos de reunião familiar e, assim, ir ao Brasil.

País mais perigoso das Américas, o Haiti passou por sucessivos desastres naturais e políticos nos últimos 20 anos e, especificamente desde 2021, quando o então presidente Jovenel Moïse foi assassinado a tiros em sua residência, viu a violência degringolar.

Hoje há uma missão internacional, com policiais do Quênia e de alguns outros poucos países, que tenta ajudar a polícia local.

As cifras para descrever a calamitosa situação parecem infinitas. Em resumo, de 80% a 90% de toda a capital, Porto Príncipe, é dominada por gangues armadas; mais de 1,4 milhão de pessoas está fora de seus lares, deslocada pela violência; e a insegurança alimentar atinge 5,8 milhões —o país tem cerca de 12 milhões de habitantes.

Mortes causadas pelas gangues correspondem a uma média de 30% a 50% de todos os assassinatos cometidos no país, segundo estimativas da ONU. Há, ainda, o que vem sendo descrito como uma epidemia de violência sexual, com estupros coletivos praticados pelos membros das gangues, em especial contra adolescentes de 12 a 17 anos.

Após uma década sem eleições, o Haiti tem um pleito presidencial agendado para dezembro deste ano. Mas há enormes dúvidas sobre a viabilidade desse processo. No último mês, um massacre perpetrado por gangues na cidade de Kenscoff deixou 47 mortos.

Para o governo Trump, porém, o quadro social do Haiti não justifica a manutenção da proteção de acolhida humanitária.

Em números

  • A violência; e a insegurança alimentar atinge 5,8 milhões —o país tem cerca de 12 milhões de habitantes
  • No último mês, um massacre perpetrado por gangues na cidade de Kenscoff deixou 47 mortos

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