Essa é a avaliação de especialistas em relações internacionais na América Latina consultados pela Agência Brasil, como o professor de ciência política da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Danilo Enrico Martuscelli.
Nesta semana, às margens da 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, os 15 países da coalizão divulgaram documento informando a intenção de levar a proposta do Escudo das Américas para dentro da Organização dos Estados Americanos (OEA).
No documento divulgado, as nações concordaram ainda em classificar como “terroristas” 24 grupos narcotraficantes, entre eles, os brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
O especialista Danilo Enrico Martuscelli classifica a política do segundo mandato de Donald Trump como “de agressão imperial aberta” e, ao questionar a política de combate aos cartéis da Casa Branca, lembra que o próprio Trump deu indulto ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por facilitar a importação de toneladas de cocaína para os EUA.
Criado em março deste ano, o Escudo das Américas é formado atualmente por EUA, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
O professor de relações internacionais do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), Robson Valdez, ponderou que o foco principal do Escudo das Américas é a possibilidade de utilizar o narcotráfico para legitimar ingerências na América Latina.
Para Valdez, a coalizão visa “principalmente, [legitimar] a presença física de tropas americanas na região a pretexto de combater o crime organizado”.
Sem ter sido convocado para participar da iniciativa, o governo brasileiro encara o Escudo das Américas com cautela, ao mesmo tempo que mantém as medidas de cooperação internacional no combate ao crime organizado com os países da região.
Para Brasília, a iniciativa pode ser usada por Washington para obter alinhamentos automáticos no campo econômico, com possíveis restrições à presença da China na América Latina.
Ao anunciar a coalizão, o governo Donald Trump informou que a iniciativa tem como objetivo, além do combate ao narcotráfico, “manter as ameaças externas afastadas, incluindo as influências estrangeiras malignas provenientes de fora do Hemisfério Ocidental”.
No documento conjunto publicado nesta semana, o grupo informa que pretende apresentar proposta à OEA para atuação conjunta dos países no combate ao narcotráfico.
Assinado em 1947, no contexto da Guerra Fria, o TIAR prevê que “a agressão a um Estado americano constitui uma agressão a todos os demais Estados americanos”.
O professor Danilo Martuscelli pondera que, ao levar o tema à OEA, o grupo liderado pelos EUA tenta pressionar os países que ainda não aderiram à proposta, como Brasil, México, Uruguai e Canadá.
O governo brasileiro espera a apresentação da proposta do Escudo das Américas à OEA para estudar se apoiará ou rejeitará uma eventual resolução do organismo internacional sobre o tema.
O documento da Coalizão divulgado em Nova York mistura o combate às drogas com medidas de “cooperação econômica” entre os países, incluindo a proteção das “cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis”.
Os minerais críticos, insumos centrais na indústria da tecnologia, defesa e transição energética, são um dos principais focos da disputa comercial e tecnológica travada entre Washington e Pequim.
O professor de relações internacionais Robson Valdez acrescentou que o Escudo das Américas pode ser usado para impor a venda de equipamentos militares dos EUA, “o que tira dos países a autonomia de escolher os seus parceiros para compras de armamento”.
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