Ao longo de duas décadas e dez pronunciamentos no plenário da Assembleia Geral das Nações Unidas (2003–2008 e 2023–2026), a política externa expressa no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou por uma reorientação de prioridades.
- Desde 2003, o tema é levado ao plenário da ONU por Lula, destacando a criação do programa Fome Zero no Brasil e propondo a criação de um Fundo Mundial ou Comitê de Combate à Fome.
- Em 2005, na reunião de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente citou Josué de Castro ("a fome é expressão biológica de males sociológicos"), lembrando o primeiro diretor-geral da FAO, figura evocada novamente em 2008.
- Em 2024, alertou que o número de pessoas passando fome no mundo aumentou em mais de 152 milhões desde 2019 e lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza no âmbito do G20.
- Em 2025, celebrou a confirmação oficial da FAO de que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome.
- Em 2026, lembrou ser "um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome", defendendo a política de "colocar o pobre no orçamento" e o fortalecimento de redes de proteção social.
- Desde 2003, o presidente sustenta que o Conselho de Segurança precisa refletir a atual configuração geopolítica do planeta, com a inclusão de países em desenvolvimento, especialmente da América Latina e da África, entre os membros permanentes.
- Nos primeiros pronunciamentos, o foco recaía sobre a falta de representatividade do órgão. Em 2003, Lula afirmou que a composição do Conselho, sobretudo entre os membros permanentes, não poderia permanecer a mesma existente desde a criação da ONU. Em 2007, voltou a defender uma participação maior dos países em desenvolvimento nos principais espaços de decisão internacional.
- Duas décadas depois, a crítica foi ampliada. Nos discursos mais recentes, o presidente passou a associar a exclusão da América Latina e da África a heranças do colonialismo e a cobrar uma reforma estrutural mais profunda da governança global. Em 2024, classificou a ausência dessas regiões entre os integrantes permanentes como um reflexo inaceitável de práticas de dominação do passado.
- Já em 2025 e 2026, acrescentou críticas à incapacidade de resposta da instituição diante das crises internacionais, afirmando que o mundo se tornou refém da paralisia de um Conselho de Segurança que não consegue cumprir plenamente seu papel.
- A rejeição ao unilateralismo e a defesa do Direito Internacional atravessam todas as intervenções. O Brasil manteve a defesa da autodeterminação e da criação de um Estado Palestino soberano, com menções à causa em 2004 e de 2023 a 2026.
- Nos discursos de 2024 a 2026, Lula repudiou os atos terroristas do Hamas, mas classificou as ações israelenses em Gaza como "punição coletiva", "vingança" e "genocídio" praticado contra mulheres e crianças.
- Os conflitos são uma constante no discurso, mas mudaram ao longo dos anos: no início do século, a guerra do Iraque foi mencionada no primeiro discurso; de 2023 a 2026, menções consecutivas à guerra entre Ucrânia e Rússia.
- Nos anos 2000, o debate concentrava-se no Protocolo de Quioto, na redução inicial do desmatamento e na exaltação dos biocombustíveis (etanol e biodiesel) como matriz limpa e motor de desenvolvimento.
- Já no seu retorno à Assembleia, durante o seu terceiro mandato, a questão evoluiu para o enfrentamento de uma emergência climática planetária. O país assumiu a meta de zerar o desmatamento até 2030, apresentou novas metas de redução de emissões, convocou a COP30 em Belém ("COP da Verdade") em 2025, lançou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e adotou um combate ao negacionismo climático.
- Nos primeiros discursos de Lula na ONU, o cenário permitia a articulação otimista de uma nova geografia econômica no sul global (IBAS, BRICs, UNASUL, G-20 comercial).
- Anos 2023 a 2026: O ambiente global passou a ser dominado por conflitos simultâneos, pela disparada dos gastos militares globais (superando 2,4 trilhões de dólares) e pelo recrudescimento de questões hegemônicas, levando à afirmação categórica em 2026 de que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém.
- Anos 2000: Prevalecia um tom de aposta na autoridade da organização para evitar guerras e promover o desenvolvimento.
- Anos 2023–2026: A crítica tornou-se incisiva. Em 2026, Lula declarou ser esse "o momento mais crítico das Nações Unidas", apontando que a credibilidade da instituição "nunca esteve tão baixa" perante a incapacidade de conter conflagrações e proteger populações vulneráveis.
- Denúncia do "neoliberalismo digital" promovido por "tecno-oligarcas", alerta contra a concentração no campo da Inteligência Artificial e defesa da regulação estatal para impedir que a internet seja uma "terra sem lei.
- Em 2026, a pauta incorporou o combate à indústria das bets, a aprovação de legislação para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital, o rechaço a pressões multinacionais para privatizar o PIX e a citação da advertência do Papa Leão 14 sobre a responsabilidade ética do avanço tecnológico.
- Reação direta contra forças extremistas, agressões ao Judiciário e tentativas de subversão democrática no Brasil.
- Em 2025, Lula comentou o ineditismo da condenação de um ex-chefe de Estado por atentar contra o Estado Democrático de Direito, uma menção indireta ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
- Em 2026, a denúncia contra o uso de redes de desinformação com ingerência externa no processo eleitoral e a afirmação de que a democracia brasileira é soberana e inegociável.
- Proposta de cooperação internacional contra a lavagem de dinheiro, criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia e promulgação da Lei Antifacção.
- Defesa de novas garantias ao trabalhador, incluindo o apoio expresso ao fim da escala 6x1 e combate à sobrecarga doméstica feminina.
Se no primeiro ciclo de mandatos o foco principal era o otimismo da inclusão social, na expansão do comércio Sul-Sul e na crítica ao protecionismo agrícola dos países desenvolvidos, os discursos recentes posicionam o Brasil na liderança do combate à emergência climática, na regulação das plataformas digitais e na defesa da soberania democrática contra o extremismo.
O Brasil não cabe no quintal de ninguém', diz Lula em discurso na ONU.
Multilateralismo e solução pacífica de conflitos.
Lula fala em momento mais crítico da ONU e sentimento de 'indignação.
Governança digital, regulação das Big Techs e proteção no ambiente virtual.
Defesa explícita do Estado Democrático de Direito.
Combate ao crime organizado e pauta trabalhista.
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