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Como conflitos globais viraram dor de cabeça para Trump em eleições de meio de mandato nos EUA

Com a aproximação das eleições que renovarão boa parte do Congresso, o presidente volta seus olhos para o exterior em busca de ajuda para um problema interno ur

6 min de leitura
Como conflitos globais viraram dor de cabeça para Trump em eleições de meio de mandato nos EUA

Com a aproximação das eleições que decidirão o controle do Congresso nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump passou a voltar seus olhos para o exterior — e para a Rússia, em particular — em busca de ajuda para lidar com um de seus problemas mais urgentes.

Um fim de semana agitado começou na tarde de sexta-feira, quando Trump anunciou um novo acordo com o presidente russo Vladimir Putin, que fornecerá aos EUA centenas de milhares de toneladas de combustível diesel russo nos próximos meses.

Os altos preços de energia — especialmente para os estados agrícolas do centro do país que dependem do diesel para máquinas agrícolas e para o transporte — têm sido uma crescente fonte de frustração para os eleitores americanos.

Eles irão às urnas em 3 de novembro para escolher todos os 435 deputados da Câmara dos Representantes e 35 dos 100 assentos do Senado. Os deputados tem mandatos de dois anos, os senadores de seis.

As pesquisas indicam que os eleitores consideram a guerra contra o Irã a principal causa de seus problemas. O apoio geral a Trump e a aprovação de sua gestão da guerra e da economia americana caíram drasticamente.

Em publicação na rede Truth Social, Trump anunciou seu acordo com a Rússia como algo que traria "preços mais baixos para os americanos", enquanto ordenava ao Departamento do Tesouro que suspendesse as restrições americanas que impediam a venda de diesel russo nos mercados globais.

Dois dias depois, Trump estava de volta à sua rede social, divulgando um novo acordo de cessar-fogo energético entre a Rússia e a Ucrânia.

A verdade, porém, era mais complicada.

Rússia ataca instalações de energia da Ucrânia apesar de trégua anunciada por Trump.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou não ter sido avisado com antecedência sobre o acordo, embora tenha dito que seu país o cumpriria. A Rússia, por sua vez, manteve-se em silêncio.

E, na noite de domingo, lançou uma nova onda de ataques contra usinas elétricas ucranianas.

É evidente que Putin não lê o Truth Social", observou Zelensky ironicamente na segunda-feira. Ele acrescentou: "Neste inverno, se a Rússia não concordar com um cessar-fogo energético, nós responderemos.

Trump e Zelensky tiveram uma relação tumultuada ao longo de seu segundo mandato. O presidente americano alterna entre culpar a Rússia e a Ucrânia pelo conflito contínuo, que ele anteriormente disse que seria fácil de resolver assim que retornasse à Casa Branca.

Nos últimos dias, Zelensky tem sido o principal alvo da ira de Trump, já que os ataques da Ucrânia à infraestrutura petrolífera russa contribuíram para a escassez mundial de energia.

No sábado, Trump disse a repórteres na Casa Branca que chegou a hora de a Ucrânia ter um novo presidente. Tanto o Financial Times quanto a CNN noticiaram que os EUA ameaçaram cortar a venda de armas e o compartilhamento de informações de inteligência com a Ucrânia caso Zelensky não interrompa os ataques às refinarias russas.

Zelensky deve "parar imediatamente", disse Trump.

Acho que o presidente (dos EUA) tem um histórico público de uma década de ataques pessoais contra aqueles que não fazem o que ele quer, quando e como ele quer", disse Terry Haines, fundador do think tank independente Pangaea Policy, à BBC.

Agora parece que a celebração da "trégua energética" por Trump é só mais um de seus atos típicos: alardear um acordo antes mesmo de ele ter sido firmado e implementado.

No passado, por exemplo, ele já anunciou prematuramente cessar-fogos no Oriente Médio e amplos acordos de paz.

Seja por impaciência do presidente com a lentidão da diplomacia ou por uma tática de negociação astuta para levar um acordo à conclusão, o resultado é uma corrida contra o tempo, enquanto o mundo tenta entender o que isso significa e como reagir.

Essas reações não demoraram a aparecer.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, que se tornou um crítico ferrenho do presidente no cenário internacional, ofereceu "forte apoio" ao cessar-fogo energético, mas condenou o acordo sobre o diesel por minar a paz e a estabilidade na Europa e por ajudar a Rússia a financiar sua "guerra ilegal e injustificável contra a Ucrânia.

Nos EUA, o anúncio de Trump sobre o diesel gerou preocupação semelhante, inclusive entre membros de seu próprio partido. Quatro senadores republicanos se uniram aos democratas em uma carta pedindo ao presidente que "revertesse imediatamente sua decisão.

O Congresso proibiu explicitamente as importações de energia russa em 2022 para impedir que dólares americanos financiem a guerra brutal de Putin contra a Ucrânia", escreveram os senadores em um comunicado divulgado no domingo.

A decisão do presidente Trump de permitir a importação de diesel russo para os EUA contraria diretamente essa lei.

Trump suspende sanções à Rússia e anuncia acordo para compra de diesel.

Entretanto, à medida que os últimos desdobramentos do conflito entre Rússia e Ucrânia se intensificam, a nova onda de violência no Oriente Médio ameaça pressionar ainda mais os mercados globais de energia, independentemente do que aconteça com o petróleo russo.

Uma onda de ataques dos houthis contra a Arábia Saudita, incluindo atentados a aeroportos e infraestrutura energética que mataram pelo menos 13 pessoas no fim de semana, ameaçou intensificar um conflito que já dura uma década e que vinha se agravando durante a guerra entre os EUA e o Irã.

Os houthis estão enviando uma mensagem de que não se trata apenas de alvos militares, não se trata apenas de infraestrutura energética. Eles também vão atacar aeroportos civis, o que pode matar muita gente", disse Michael Ratney, ex-embaixador dos EUA na Arábia Saudita, à BBC.

A guerra entre os EUA e o Irã é um conflito que nenhuma das nações árabes da região desejava, afirmou ele, e a mais recente ofensiva dos houthis era previsível.

Com os EUA e o Irã atualmente em um impasse prolongado, quaisquer novas hostilidades poderiam levar a mais conflitos regionais e fazer com que os preços do petróleo disparassem novamente.

Acho que a situação vai piorar antes de realmente se acalmar", disse ele.

Nas últimas semanas, Trump apontou a Ucrânia, e não o Oriente Médio, como a principal fonte dos problemas energéticos mundiais. Ele cita o aumento do tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, que havia sido efetivamente fechado pela ameaça militar do Irã.

Isso pode, no entanto, ser apenas uma ilusão — uma tentativa de convencer o público americano a direcionar sua raiva relacionada à energia para um conflito que começou sob a gestão de um presidente diferente.

No entanto, só há um presidente por vez. E quando os eleitores americanos votam, tendem a responsabilizar aqueles que estão no poder.

Após um fim de semana difícil que comprovou mais uma vez que não existem soluções fáceis para a crise energética global, essa pode ser a pior notícia de todas para o presidente dos EUA.

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