0x Da ferrovia às salas de aula e aos festivais, diferentes comunidades estrangeiras ajudaram a formar a identidade cultural de Campo Grande ao longo de 127 anos.
(Fotos: Divulgação/Associação Nipo-brasileira/Feira Central/Aliança Francesa) O que constrói uma cidade? O cimento das calçadas? O asfalto das ruas e avenidas? As pessoas.
Sim, isso tudo faz parte da cidade. Mas ela também é feita de histórias, de gente que desembarca com uma mala, um sonho e a coragem de recomeçar; de sotaques que se misturam, de receitas que viram patrimônio, de festas que se tornam tradição.
Campo Grande completa 127 anos sendo um ponto de encontro do mundo. E essa vocação de acolher, que nasceu com os trilhos da ferrovia no início do século passado, continua viva nos dias de hoje.
Os imigrantes vêm por diferentes razões: uns buscam segurança e trabalho, outros fogem de conflitos e crises econômicas, e também tem os que vêm para estudar, os que seguem a família e os que simplesmente querem reconstruir a vida.
Segundo o último censo realizado em 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem 4. 111 estrangeiros e 2. 171 naturalizados brasileiros vivendo na Capital.
Já em Mato Grosso do Sul, de acordo com o DataMigra, do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), 39 mil estrangeiros possuem residência ativa no Estado.
Deste número, 693 são japoneses, 160 cubanos, 93 guineenses e 65 franceses. Venezuelanos, haitianos, colombianos e angolanos também fazem parte desse mosaico.
A presença estrangeira não é novidade. Em 1906, chegaram os primeiros libaneses. Em 1909, foi a vez dos japoneses, que vieram pregar os trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.
Segundo o vice-presidente da Associação Nipo-Brasileira, Cláudio Sussumu Oikawa, dos 781 imigrantes que chegaram com o navio Kasato Maru, 120 vieram trabalhar na ferrovia que ligou Bauru (SP) a Campo Grande.
A cidade tinha apenas 15 anos. Depois vieram franceses, italianos e, mais tarde, haitianos, venezuelanos e cubanos. Cada grupo deixou sua marca.
Hoje, a comunidade japonesa de MS é a terceira maior do Brasil. O Festival do Japão, que atraiu cerca de 48 mil pessoas no ano passado, é a prova de que essa cultura foi abraçada pela cidade.
Tudo na cultura japonesa fala sobre família e gratidão.”.
A diretora da Aliança Francesa, Márcia Saddi, enxerga a instituição como uma ponte de acolhimento cultural. “A Aliança é um espaço de encontros, de conhecimento, de convivência com o diferente.
Promovemos exposições, recitais, festivais de cinema para formar uma visão de mundo mais ampla.”.
A instituição está presente em 134 países para promover ensino de língua e cultura francesas. Em Campo Grande, a Aliança completa, em 2026, 65 anos de existência.
Para Saddi, a diversidade que o espaço oferece não é mero detalhe, mas “a grande riqueza” do que promovem. A diretora lembra que a Cidade Morena se beneficiou muito da integração entre diferentes culturas e, para o seu aniversário, deseja que ela “continue sendo plural”.
Histórias que atravessaram fronteiras.
Na sede da Aliança Francesa, encontra-se também o Consulado Honorário da França, para acolher franceses que chegam à cidade. O consulado estima que MS tenha uma comunidade de 60 pessoas nascidas na França.
Uma delas é Leslie Brunaud, 40 anos, professora e tradutora, que chegou a Campo Grande em 2014, junto ao ex-marido campo-grandense. A vinda ao Brasil foi planejada, quando chegaram, a casa já estava alugada, e a família do ex-companheiro os recebeu com uma festa.
Leslie se encantou com a natureza, as araras e os tucanos, e com as pessoas. “O povo daqui é curioso, acolhedor e carinhoso. Nunca senti preconceito”, afirma.
Ela também dá um conselho para outros estrangeiros. “Venha com a mente aberta e paciência. O calor é de verdade, mas o acolhimento também!”.
O estudante de pedagogia, Maurício Fernandes, 27 anos, saiu de Bissau, capital de Guiné-Bissau, para estudar na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
A instituição estima 200 alunos internacionais em intercâmbio. Para Maurício, que faz parte de uma comunidade de intercambistas, a adaptação demorou um pouco. “Não imaginava que a cidade fosse assim, mas com o tempo vi que é tranquila e boa para estudar.”.
O acolhimento, porém, não veio de instituições. “Cheguei por conta própria, um conterrâneo me recebeu. No primeiro ano, minha família bancou tudo; só depois consegui uma bolsa”, conta.
Ele sentiu o choque cultural. “O dialeto é diferente, as pessoas podem parecer mais reservadas. Às vezes dá vontade de desistir, mas faz parte. Espero que a cidade continue mantendo a tranquilidade e o acolhimento”.
De Cuba, veio Ernesto Velazco, 33 anos, formado em Direito, que saiu da ilha caribenha em busca de reerguer sua vida. A integração também não se deu por nenhuma instituição, foi construída no dia a dia.
Ele trabalhou em diversas funções, mas esbarrou no preconceito: “Ouvi que imigrantes só conseguem trabalho em supermercados. Não desrespeito esses trabalhos, mas o problema é presumir que esse seja o limite profissional de uma pessoa.
Antes de colocar o imigrante numa categoria, é preciso conhecer sua história, sua formação, sua experiência.”.
Para Velazco, acolhimento é enxergar a pessoa além do sotaque. “Converse com o imigrante antes de julgá-lo. Muitos de nós chegamos com formação e história. Integração de verdade é dar oportunidade de mostrar do que somos capazes.” Para o futuro, Ernesto pede que a cidade “saiba valorizar quem chega não pelo passaporte, mas pelo que pode contribuir”.
Campo Grande, aos 127 anos, é uma cidade feita de várias culturas, costumes e línguas. O sobá, os festivais, as aulas de francês, o comércio, as salas da universidade, tudo carrega um pouco dessa herança.
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Em números
- O Festival do Japão, que atraiu cerca de 48 mil pessoas no ano passado, é a prova de que essa cul
- O consulado estima que MS tenha uma comunidade de 60 pessoas nascidas na França
Fontes
Informação baseada em material público de A Crítica, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.