A corrida pela inteligência artificial ganhou um novo capítulo com o avanço dos chamados modelos abertos, sistemas que permitem que empresas, governos e pesquisadores tenham acesso à tecnologia, adaptem seu funcionamento e executem as ferramentas em servidores próprios.
Embora ainda não superem os principais modelos desenvolvidos por empresas como OpenAI e Anthropic, essas soluções estão reduzindo a diferença de desempenho e mudando a disputa pelo mercado global de IA.
Um dos principais exemplos desse movimento é o DeepSeek, modelo criado na China que chamou atenção do mercado internacional ao demonstrar que era possível desenvolver uma inteligência artificial competitiva com investimentos menores em comparação aos grandes grupos de tecnologia.
Diferentemente dos sistemas fechados, os modelos abertos oferecem maior acesso aos parâmetros de funcionamento da tecnologia e podem ser modificados para diferentes aplicações.
O avanço desses sistemas também está relacionado à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. As restrições americanas à venda de chips avançados levaram empresas chinesas a buscar maneiras de desenvolver modelos mais eficientes, reduzindo a dependência de equipamentos de alto desempenho.
China amplia presença na corrida da inteligência artificial Entre as empresas chinesas que ganharam destaque está a Moonshot AI, responsável pela família de modelos Kimi.
A companhia recebeu investimentos de grandes grupos como Alibaba e Tencent e demonstrou que modelos de pesos abertos podem competir com ferramentas proprietárias desenvolvidas no Vale do Silício.
A diferença entre os modelos está principalmente no nível de acesso oferecido. Sistemas fechados, como os desenvolvidos por grandes empresas de tecnologia, funcionam dentro das plataformas dos próprios criadores.
Já os modelos de pesos abertos disponibilizam os parâmetros matemáticos treinados da inteligência artificial, permitindo que outras organizações baixem, adaptem e executem a tecnologia em suas próprias estruturas.
Segundo Kenneth Corrêa, professor de MBA da FGV, os modelos chineses passaram a ocupar uma posição relevante no desenvolvimento de inteligência artificial aberta.
Modelos abertos podem mudar mercado de IA Especialistas avaliam que o crescimento dos modelos abertos pode alterar a dinâmica do setor, especialmente ao transformar os grandes modelos de linguagem em uma espécie de infraestrutura acessível para criação de novas soluções.
Para Anderson Soares, coordenador científico do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, a expansão desses modelos representa um desafio comercial para empresas que trabalham com sistemas fechados.
Na avaliação do pesquisador, os modelos abertos podem não necessariamente superar as ferramentas mais avançadas, mas podem oferecer alternativas competitivas para diferentes usos.
Victor Pavarin Tavares, coordenador de pesquisa do InternetLab, ressalta que a abertura precisa ser completa para representar uma mudança real no mercado. Segundo ele, não basta disponibilizar apenas parte do sistema, como o código-fonte, sem transparência sobre dados e outros elementos usados no treinamento.
IA aberta é vista como caminho para soberania tecnológica Além da disputa comercial, os modelos abertos também levantam discussões sobre autonomia tecnológica dos países.
Segundo Anderson Soares, a possibilidade de acessar e adaptar modelos de inteligência artificial reduz a dependência de soluções controladas exclusivamente por empresas estrangeiras.
O pesquisador afirma que criar um modelo de inteligência artificial do zero exige recursos elevados e que uma estratégia possível seria aprimorar tecnologias abertas já existentes.
Kenneth Corrêa explica que, quando o acesso ao modelo deixa de ser o principal diferencial, os investimentos passam a se concentrar em chips, energia, data centers e processamento de dados.
O avanço dos modelos abertos também pode levar empresas a combinar diferentes tipos de inteligência artificial. Segundo Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, organizações poderão escolher modelos proprietários ou abertos conforme a necessidade de cada aplicação.
China amplia presença na corrida da inteligência artificial.
Modelos abertos podem mudar mercado de IA.
IA aberta é vista como caminho para soberania tecnológica.
Para Tavares, países como o Brasil podem aproveitar modelos existentes para desenvolver soluções próprias, especialmente por meio de ajustes específicos, conhecidos como fine-tuning, utilizando dados e necessidades locais.
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