Ir para o conteúdo
Mato Grosso do Sul

Mais de meia tonelada de drogas que deveria sair das ruas voltou ao tráfico

6 min de leitura
Mais de meia tonelada de drogas que deveria sair das ruas voltou ao tráfico

Gaeco aponta que policiais desviaram 637 kg de cocaína e maconha em 4 apreensões.

A droga apreendida pela polícia deveria ter um destino conhecido: ficar sob custódia do Estado até a destruição. Mas, segundo a investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) na Operação Infiltrados, parte de quatro grandes apreensões em Mato Grosso do Sul que revelaram o esquema, teria feito o caminho inverso e retornado ao tráfico.

A representação aponta que 637 quilos de drogas teriam sido desviados ou negociados a partir de cargas que somavam 1. 765 quilos de entorpecentes apreendidos oficialmente entre os anos de 2022 e 2025.

Os casos envolvem cocaína e maconha e citam policiais civis da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) e do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros).

No centro da engrenagem descrita pelo Ministério Público aparece Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, que seria o elo entre traficantes e agentes públicos investigados, responsável por receber informações sobre carregamentos, negociar percentuais de drogas apreendidas e articular a venda do entorpecente que teria sido retirado das cargas oficiais.

A investigação aponta que LK contava com apoio de outros integrantes do grupo criminoso, entre eles Eberth Batista de Almeida, Kayon Lucas Leodoro da Silva, Lavínia Carvalho da Luz e Wesley Benite Matos Pereira Duarte, que seriam responsáveis por etapas como armazenamento e comercialização da droga.

Bugatti - O primeiro episódio citado na investigação ocorreu em 14 de dezembro de 2022, quando PRF (Polícia Rodoviária Federal) e Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado) apreenderam 326 quilos de cocaína em Campo Grande.

A droga estava escondida em um fundo falso de um veículo que transportava placas solares, na Avenida Gunter Hans. O carregamento, dividido em 300 invólucros, foi encaminhado para a Denar para a pesagem e armazenamento.

Segundo o Gaeco, poucas horas depois da chegada da droga à delegacia, Lucas (“LK”) e Edimilson Santos Pereira, líder de uma organização criminosa especializada no tráfico de drogas, passaram a negociar a compra de parte da cocaína com policiais civis.

O relatório também relaciona a negociação à marca “Bugatti”, encontrada em tabletes da cocaína apreendida. Segundo a investigação, LK teria enviado uma imagem da embalagem para confirmar aos comparsas que se tratava da mesma droga apreendida pela polícia.

Maconha - O segundo caso envolve a apreensão de 793 quilos de maconha, feita pela Denar em 3 de maio de 2024, em Campo Grande. Conforme a investigação, a operação teria sido desencadeada após informação repassada por LK aos policiais, travestida de "denúncia anônima.

Em áudios analisados pela investigação, Lucas reclama que, considerando uma carga próxima de 800 quilos, o percentual combinado representaria cerca de 160 quilos.

A investigação cita a participação do policial civil Douglas Tobias e também do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, então responsável pela Denar.

Como prova cabal do desvio de drogas por parte dos policiais civis (...), foram localizados, no repositório de imagens dos dados telemáticos de LUCAS DA SILVA DOS SANTOS ("LK"), (...) ambos datados de 6 de maio de 2024, contendo diversos tabletes de maconha com o mesmo invólucro identificado na droga apreendida pela DENAR no dia 3 de maio de 2024, na Rua Ezequiel Ferreira de Lima, em Campo Grande/MS.

Bela Vista - Um dos episódios de maior volume envolve a apreensão de 643 quilos de cocaína, realizada por Hoffman em 21 de maio de 2024, em Bela Vista.

Segundo o GAECO, Lucas (“LK”) e Eberth Batista de Almeida teriam informado aos policiais sobre a existência da carga. A investigação afirma que os envolvidos sabiam da presença de aproximadamente 1,1 tonelada de cocaína no local, mas somente parte foi apresentada oficialmente.

A representação aponta que cerca de 400 quilos teriam sido desviados antes do registro final da apreensão. Nesse episódio, aparecem citados os policiais civis Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Luiz Carlos de Souza e Douglas Tobias, além do delegado.

Chamou a atenção dos investigadores o fato de a equipe de Campo Grande se dirigir até a cidade de fronteira para averiguar uma denúncia anônima. "Trata-se de providência que destoa do padrão mínimo de racionalidade operacional, sobretudo diante do ônus logístico do deslocamento", cita o documento.

Além disso, o Gaeco destaca que há dado ainda mais incomum neste caso: "a sequência da ocorrência torna o episódio ainda mais incomum, sobretudo porque sugere uma sequência de eventos pouco verossímil, visto que o então flagranteado (...) teria confessado espontaneamente a existência de mais cocaína em sua residência, indicando novo local de apreensão - comportamento que não é o ordinariamente esperado de quem, em tese, estaria surpreendido em situação flagrancial e buscava minimizar sua exposição.

Garras - O quarto episódio citado ocorreu em 5 de outubro de 2025, no Jardim Los Angeles, em Campo Grande. Segundo o Gaeco, LK e Kayon Lucas Leodoro da Silva informaram aos policiais do Garras que uma residência tinha uma quantidade maior de maconha.

No registro oficial, foram apreendidos 3 quilos. A investigação, porém, aponta que pelo menos 37 quilos teriam sido retirados antes da formalização da ocorrência.

O caso envolve os policiais Augusto Torres Galvão Florindo e Marcos André Santos Chaves, conforme a representação.

Esta é a segunda vez que Florindo é preso. O agora ex-policial já havia sido alvo de outra investigação envolvendo suspeita de irregularidades com materiais apreendidos.

Em 28 de novembro de 2025, ele foi alvo de apuração sobre suposto desvio e venda de mercadorias contrabandeadas que estavam sob custódia da Polícia Civil.

Para o Gaeco, os quatro episódios indicam um mesmo padrão de atuação: informações sobre cargas de drogas chegariam até policiais, que teriam acesso aos entorpecentes apreendidos, enquanto LK faria a ponte com traficantes interessados na mercadoria.

A investigação aponta que o esquema teria envolvido agentes de diferentes unidades policiais e funcionado em momentos distintos, mas com o mesmo intermediário no lado do tráfico.

A operação cumpriu mandados de prisão contra 24 investigados, entre policiais civis, militares, policial penal e suspeitos ligados ao tráfico.

Em números

  • A investigação afirma que os envolvidos sabiam da presença de aproximadamente 1,1 tonelada de cocaína no local, mas somente parte foi aprese

Comentários

Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.

Carregando comentários…

Zema e Renan cumprem agenda eleitoral em MG neste sábado (26/9)
Brasil

Zema e Renan cumprem agenda eleitoral em MG neste sábado (26/9)

Zema iniciou a agenda em Pouso Alegre, no Sul de Minas. Às 9h, participou de uma entrevista gravada para o portal Terra do Mandu. Meia hora depois, o candidato se encontrou com apoiadores em uma padaria da cidade.

Em Brasil