Ação reúne 3 ministérios para apurar denúncias de violência registradas depois do segundo turno.
O governo federal criou uma força-tarefa interministerial para receber e apurar denúncias de violência contra comunidades indígenas após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25).
O anúncio foi feito pelo ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, em meio à repercussão de ameaças registradas em Mato Grosso do Sul, incluindo o caso de dois servidores municipais de Tacuru que sugeriram envenenar a água consumida por indígenas.
A força-tarefa reúne os ministérios dos Povos Indígenas, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. Segundo Eloy, uma equipe foi designada para receber os relatos, identificar os denunciados e encaminhar as informações aos órgãos responsáveis pela investigação.
Eloy informou ainda que o Ministério da Justiça requisitou às corregedorias estaduais e do Distrito Federal informações sobre denúncias recebidas após a eleição.
O objetivo é centralizar os registros e permitir o acompanhamento das providências adotadas em cada caso.
O ministro também confirmou que parte dos casos encaminhados à PF (Polícia Federal) já resultou na instauração de inquéritos. Ele não especificou quantas investigações foram abertas nem quais episódios estão incluídos.
Ameaças em MS – A mobilização federal ocorre depois que denúncias de ameaças e intimidações contra indígenas ganharam repercussão em Mato Grosso do Sul. O caso mais conhecido foi registrado em Tacuru, a 420 quilômetros de Campo Grande, onde dois servidores municipais trocaram áudios com ofensas à população indígena após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em uma das gravações, um dos homens sugere colocar veneno na água consumida pelas comunidades. A conversa foi divulgada na segunda-feira (26) pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).
Inicialmente, o prefeito afirmou que havia apenas chamado a atenção dos servidores e atribuiu as declarações ao consumo de álcool e à euforia após o resultado eleitoral.
Posteriormente, anunciou a abertura de procedimento administrativo e o afastamento de um dos funcionários.
Nesta quinta-feira (29), a Prefeitura de Tacuru informou que instaurou um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) e afastou os dois servidores. Segundo a administração municipal, os atos de afastamento serão publicados no Diário Oficial de sexta-feira (30).
A prefeitura também afirmou que repudia manifestações de racismo, discriminação e incitação à violência e que está colaborando com as autoridades federais.
Na ocasião, o ministro afirmou que a gravidade das declarações ultrapassava uma divergência política, por envolver ameaças à vida de integrantes de uma comunidade indígena.
O MPF (Ministério Público Federal) também instaurou procedimento e deu prazo de 48 horas para a Prefeitura de Tacuru prestar esclarecimentos sobre a autoria das gravações, as providências administrativas e as medidas adotadas para garantir a segurança dos indígenas.
Nesta quinta-feira, a DPU (Defensoria Pública da União) anunciou que acompanha o caso envolvendo a comunidade Sassoró e cobrou responsabilização criminal dos envolvidos.
Para a Defensoria, as manifestações representam discurso de ódio de caráter racista e discriminatório. O órgão também recomendou medidas de segurança e vigilância sanitária para proteger os moradores e os recursos hídricos da comunidade.
Segundo o ministro, depois da repercussão das gravações de Tacuru, outras comunidades começaram a encaminhar áudios, mensagens e capturas de tela com denúncias de ameaças.
Em Naviraí, o MPF apurou informações sobre supostos homicídios de indígenas relacionados ao resultado eleitoral, mas não encontrou elementos que confirmassem ataques contra integrantes das comunidades Kurupi e Mboreviry.
As diligências apontaram que um crime divulgado nas redes sociais estava relacionado a um desentendimento familiar e interpessoal, sem motivação política ou étnica identificada.
O órgão também constatou que imagens circularam de forma adulterada e fora de contexto, associadas indevidamente a ataques contra indígenas.
Violência política – O avanço das denúncias ocorre em um cenário mais amplo de violência após as eleições. Balanço divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública na quarta-feira (28) apontou 45 crimes de violência política registrados no país entre sábado (24) e quarta-feira, com 47 vítimas e dez mortes.
Mato Grosso do Sul apareceu como o terceiro estado com mais casos notificados, atrás de Paraná e São Paulo. Os números abrangem diferentes formas de violência política e não se referem exclusivamente a ataques contra comunidades indígenas.
Também não permitem concluir que as três mortes de indígenas tenham ocorrido em Mato Grosso do Sul.
A criação da força-tarefa busca concentrar informações que hoje chegam a diferentes órgãos e acelerar o encaminhamento das denúncias. O governo federal ainda não divulgou um balanço específico com o número de casos envolvendo indígenas, a quantidade de suspeitos identificados ou o total de inquéritos instaurados.
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