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Mato Grosso do Sul

Do “agro é pop” à dívida bilionária, campo enfrenta tempestade perfeita

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Do “agro é pop” à dívida bilionária, campo enfrenta tempestade perfeita

Dívidas vencem justamente quando clima adverso e queda dos preços reduzem a renda agrícola.

Durante anos, o agronegócio foi apresentado como uma máquina quase imune às crises. O “agro é pop” virou símbolo de prosperidade, avanço tecnológico e recordes de produção.

Agora, parte importante do setor enfrenta o outro lado dessa história: dívidas bilionárias, margens estreitas e dificuldade crescente para pagar os financiamentos contraídos nos tempos de bonança.

Não existe uma única causa. O que sufoca o produtor é uma tempestade perfeita, na definição da senadora Tereza Cristina, formada pela queda dos preços das commodities, aumento dos custos de produção, juros elevados, oscilações cambiais, secas, enchentes e redução da proteção oferecida pelo seguro rural.

A origem do problema está, em parte, no período de prosperidade iniciado em 2020. Os preços da soja, do milho e do gado dispararam, enquanto os custos ainda estavam em patamares mais baixos.

Com a taxa básica de juros em 2% ao ano, o crédito era barato e incentivava investimentos em máquinas, terras, armazenagem e ampliação da produção.

O cenário parecia favorável e muitos produtores assumiram financiamentos contando com a manutenção dos preços elevados. Mas a conta foi feita com base em uma realidade que não durou.

Enquanto o valor recebido pelo produtor diminuía, os custos permaneciam elevados. Os fertilizantes ficaram mais caros, principalmente após a guerra na Ucrânia, que desorganizou o mercado internacional e pressionou a oferta de insumos.

As oscilações do dólar também pesaram. O câmbio mais alto pode favorecer as exportações, mas encarece fertilizantes, defensivos, máquinas e outros produtos cotados em moeda estrangeira.

A crise climática completou o estrago. Secas prolongadas reduziram a produtividade em algumas regiões, enquanto enchentes destruíram lavouras, pastagens, estradas e estruturas de armazenamento em outras.

O produtor passou a colher menos justamente quando precisava produzir mais para compensar a queda dos preços.

Ao mesmo tempo, diminuiu o percentual de produtores protegidos por algum tipo de seguro. Sem cobertura suficiente, o prejuízo provocado pelo clima não é dividido.

Fica concentrado nas mãos de quem produz, que perde a safra, mas continua obrigado a pagar o banco, os fornecedores e os trabalhadores.

Quando os empréstimos começaram a vencer, a margem de lucro já havia desaparecido. E a taxa Selic, que estava em 2% em 2020, chegou a 15% em 2025. O crédito barato que estimulou investimentos virou uma dívida cara, difícil de renegociar e ainda mais pesada a cada novo vencimento.

É preciso evitar dois erros. O primeiro é tratar todo produtor endividado como mau administrador. Muitos foram atingidos por fatores que não controlam, especialmente o clima, os juros e os preços internacionais.

O segundo é transformar qualquer renegociação em socorro indiscriminado, pago pela sociedade, inclusive para quem assumiu riscos exagerados durante os anos de lucro fácil.

O país precisa de critérios claros para renegociar dívidas, ampliar o seguro rural e melhorar os instrumentos de proteção contra perdas climáticas e oscilações de mercado.

Crédito é necessário, mas não pode ser a única resposta. Empurrar vencimentos sem corrigir as causas apenas transfere a crise para a próxima safra.

O agronegócio continua essencial para a economia brasileira e tem peso ainda maior em estados como Mato Grosso do Sul. Justamente por isso, sua crise não pode ser escondida por slogans.

O campo produz riqueza, empregos e alimentos, mas também está sujeito a riscos. Quando o seguro encolhe, o clima castiga, os preços caem e os juros sobem, nem mesmo um setor poderoso consegue colher prosperidade onde plantou dívida.

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