Com 21 anos, acadêmica está no biotério desde os 19 e acompanhou o nascimento de 17 filhotes de jararaca.
Esqueça o tradicional “arrume-se comigo”. No vídeo de Yasmin Domingos, de 21 anos, a rotina começa de um jeito um pouco diferente: entre caixas, ganchos de manejo e serpentes que exigem atenção a cada movimento.
Acadêmica do 6º semestre de Medicina Veterinária, ela está há dois anos no Biotério da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco) e decidiu mostrar como é passar um dia cuidando de jararacas, cascavéis, jiboias e até sucuris.
A naturalidade com que Yasmin aparece nos vídeos chama atenção. Enquanto muita gente provavelmente daria alguns passos para trás ao encontrar uma cobra, ela precisa chegar perto, observar, fazer a manutenção dos espaços e participar dos cuidados com os animais.
Mas a tranquilidade não significa ausência de cautela. “Sempre tive bastante tranquilidade, mas também muita cautela. No começo existia aquela ansiedade e aquele receio natural de fazer alguma coisa errada, mas com o tempo, convivendo diariamente com esses animais, fui aprendendo a observar o comportamento de cada espécie e entendendo melhor a forma correta de manejo”, conta.
Yasmin nunca teve medo de serpentes. O interesse por elas, porém, cresceu durante a faculdade. Ela escolheu Medicina Veterinária pela conexão com os animais e pelo interesse nas áreas de saúde e conservação, até perceber que a fauna silvestre poderia ser seu caminho.
A oportunidade de estágio apareceu por meio de outros estudantes que já frequentavam o biotério. No início, Yasmin acompanhava procedimentos clínicos ambulatoriais.
Somente meses depois, com treinamento, começou a realizar manejos com gancho herpetológico, sob supervisão da professora Paula Helena Santa Rita e de Fernanda Alves Riquelme.
Hoje, uma das responsabilidades da estudante é a área de quarentena das serpentes. Por lá, animais recém-chegados passam por um período inicial de 90 dias. A rotina inclui biometria, desvermifugação, vistoria das caixas, limpeza e troca de água, além da observação constante das condições de cada serpente.
E não são apenas espécies inofensivas. “Tenho contato principalmente com serpentes peçonhentas de interesse médico do Mato Grosso do Sul, como diferentes espécies de jararacas e cascavel, além de espécies não peçonhentas, como jiboias e sucuris”, explica.
É justamente por parecer tão tranquila nos vídeos que Yasmin faz questão de destacar algo que a câmera talvez não mostre: existe técnica por trás de cada aproximação.
Quando o animal é peçonhento, improvisar está fora de questão. “É fundamental conhecer o comportamento da espécie, utilizar os equipamentos adequados e manter o ambiente organizado, isso garante tanto a segurança de quem maneja, como de quem está ao redor no mesmo ambiente.
Além disso, os manejos são realizados com supervisão e nunca devemos subestimar o animal, por mais acostumados que estejamos com a rotina.”.
Depois de dois anos, a estudante também aprendeu algo que dificilmente é percebido por quem observa uma serpente apenas de longe: elas não são todas iguais. Yasmin diz que passou a reconhecer diferenças de comportamento e pequenos sinais de cada animal.
Entre tantos animais, uma sucuri-verde acabou criando uma história particular na vida da estudante. Ela chegou ainda filhote ao biotério depois de ser resgatada, e Yasmin acompanha seu crescimento desde então.
Mas nem a sucuri protagonizou a maior surpresa desses dois anos. Certo dia, Yasmin encontrou 17 novas moradoras no biotério.
A convivência diária também mudou a maneira como Yasmin enxerga uma reação bastante comum fora do biotério: encontrar uma serpente e imediatamente tentar matá-la.
Para ela, boa parte dessa reação nasce do desconhecimento. As serpentes participam do controle das populações de outros animais e da cadeia alimentar. Algumas espécies também têm importância para pesquisas científicas e médicas, inclusive em estudos relacionados a soros e medicamentos.
Isso não significa ignorar os riscos. “Eu também acredito que não precisamos deixar de ter respeito ou cautela com as serpentes, principalmente quando falamos de espécies peçonhentas.
Se alguém encontrar uma serpente dentro de casa ou no quintal, a orientação é manter distância, afastar crianças e animais domésticos e procurar equipes habilitadas para realizar o resgate, como Corpo de Bombeiros, Polícia Militar Ambiental ou serviços especializados.
Depois de dois anos entrando em um ambiente que faria muita gente correr para o lado contrário, Yasmin gostaria que os vídeos ajudassem justamente a diminuir a imagem de vilãs que acompanha as cobras.
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