Virou esporte mundial falar sobre a derrocada da Nike. A empresa perdeu ¾ de seu valor de mercado em cinco anos, 50% nos últimos 11 meses.
Em setembro, após quase duas décadas no S&P 100, "major league" do índice combinado das bolsas NYSE e Nasdaq, os papéis passaram a ser listados no S&P 500, segunda (ou terceira) divisão do índice, o que os afasta de fundos vultosos e deve retroalimentar novas desvalorizações.
A situação é crítica na China, com dois anos seguidos de quedas de receita —o pior trimestre foi encerrado em agosto, 22% de queda.
Mas os problemas não se limitam ao plano financeiro. No simbólico, a Nike viu a estrela francesa Kylian Mbappé preteri-la pela suíça On.
Ironia: a Nike contratou Mbappé quando ele não era uma figura global —pudera, tinha apenas 8 anos— e foi perdê-lo para a marca cujo fundador queria desenvolver tênis.
Em abril, a Nike viveu seu 1x7 particular na maratona de Londres, quando Tião Sawe e Yomif Kejelcha, ambos da Adidas, quebraram a barreira das 2 horas para a distância, marca tentada com sofreguidão pela americana desde 2017 e apenas atingida fora de condições de corrida.
Por fim, Bobbito Garcia, que é tido como o sneakerhead dos sneakerheads, esses sujeitos que colecionam, amam e sabem tudo sobre a cultura do tênis, publicou vídeo jogando fora todos os seus Converse (prometeu também descartar os Nike, que controla a Converse desde 2003), após um anúncio tresloucado da marca dar bastante margem para uma associação com a Ku Klux Klan.
A Nike perdeu seu "zeitgeist", o "it" que a fazia ser desejada, como escreveu a revista The Economist numa reportagem ensaística de título matador: "Nike can’t just do it any more.
O artigo preservou o "macro": "Mesmo com as vendas declinantes, mais pares de tênis Nike foram vendidos nos últimos anos, à frente de qualquer concorrente. Quando se fala em escala, os colegas da Nike não são Adidas ou New Balance, mas Starbucks e GM.
É consensual a exegese de que a crise começou com a perda voluntária de espaço nas lojas multimarcas, ação promovida pelo ex-CEO John Donahoe, oriundo da eBay, que supôs que os canais de venda próprios dariam conta do recado.
No Brasil, a marca não vive a sangria da gringa. No balanço do segundo trimestre de 2026, a Fisia, divisão Nike do Grupo SBF (da Centauro), reportou receita líquida 27,5% superior ao mesmo período de 2025.
Sim, a Copa impactou o resultado, assim como os acordos celebrados ou renovados com CBF, Vasco, Galo e Corinthians, mas o relatório aponta alta de 26% no segmento de corrida "impulsionada pelas franquias Vomero, Pegasus e Structure.
Até 2028 a marca patrocinará uma das grandes corridas do país, a SP City, assim como segue firme o belo projeto social Vida Corrida, de Neide Santos, na periferia paulistana, entre outras ações.
Junto com Omo, Nike é a marca que vem primeiro à cabeça do consumidor, o que lhe vale a distinção "Top do Top" do prêmio Folha Top of Mind. A coluna enviou sete perguntas à Fisia na terça (6).
Ficamos, como já se anunciava, no vácuo.
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