Em cartaz em Brasília até sábado (26/9), o musical foge de uma narrativa estritamente biográfica. Em vez de seguir uma cronologia de acontecimentos da vida de Moraes, o espetáculo parte da obra do artista para acompanhar sua formação musical e as diferentes influências que atravessaram sua trajetória.
No palco, Cris Meirelles e Rodrigo Sestrem dividem a missão de representar Moraes. Cris assume a fase de formação do artista, enquanto Rodrigo apresenta um momento mais maduro, marcado também pela aproximação com o cordel.
Segundo Cris, a escolha permite acompanhar o que formou musicalmente Moraes ao longo da vida. “A dramaturgia tem alguns convites. Um é não ser uma dramaturgia biográfica, que não vai pelos fatos da vida, mas vai pela obra e pelo percurso quase de formação do artista, como aquilo que foi atravessando a escuta dele para torná-lo essa pessoa compositora de tantos hits tão diversos.”.
A diversidade mencionada pelo ator atravessa todo o espetáculo. Moraes construiu uma obra que passou por diferentes gêneros e alcançou públicos distintos, algo que chamou a atenção de Cris durante a preparação.
Apesar da divisão entre fases, a intenção não foi construir dois Moraes independentes. Os atores buscaram fazer com que as interpretações se encontrassem ao longo da narrativa.
Rodrigo, por outro lado, encontrou no cordel um dos principais pontos de aproximação com o personagem. Cordelista, ele interpreta justamente o período em que esse universo ganhou espaço na produção de Moraes.
O ator também destacou que a montagem não se limita às canções mais conhecidas. A pesquisa abriu espaço para uma parte do repertório que pode ser novidade até para quem já conhece o trabalho do baiano.
Outra figura central da montagem é a Musa Música, interpretada por Júlia Tizumba. Em vez de representar uma personagem biográfica, ela personifica a própria música que acompanha, inspira e conduz Moraes ao longo da narrativa.
Atriz, cantora e percussionista, Júlia levou elementos da própria trajetória para a construção da personagem. A identidade como mulher negra também atravessa sua interpretação e a forma como enxerga o papel no espetáculo.
A diretora Ana Paula Bouzas explicou que a relação de Moraes com a própria criação funciona como fio condutor do espetáculo. Por isso, a pesquisa não ficou restrita às músicas conhecidas do público.
A liberdade da dramaturgia permitiu ainda colocar Moraes diante de personagens importantes para sua formação musical, mesmo quando esses encontros não ocorreram daquela maneira na realidade.
Essa abordagem também ajuda a montagem a atravessar diferentes gerações. A diretora lembrou que, durante a temporada no Teatro Castro Alves, em Salvador, a plateia reuniu desde pessoas que acompanharam Moraes em vida até crianças e jovens apresentados à obra por familiares.
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