Data e local: 25 de setembro de 2026 na casa Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ).
No show homônimo que estreou em 4 de setembro em São Paulo (SP) e que chegou ao Rio de Janeiro (RJ) na noite de sexta-feira, 25 de setembro, Zélia expande esse movimento sob direção musical da mesma Maria Beraldo.
Em cena, o “Agudo grave” de Zélia Duncan se abre e se amplifica no sopro transformador de arranjos que renovam as músicas do repertório pregresso da cantora.
Terceira música na disposição de roteiro, “Me revelar” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 2001), por exemplo, ganha outra pulsação. Até “Catedral” (“Cathedral song” – Tanita Tikaran, 1988, em versão em português de Christiaan Oyens, 1994), música que catapultou a cantora ao estrelato em 1994, é reconstruída na cena leve e inventiva do show “Agudo grave”, com direito ao sopro do clarone de Maria Beraldo na estreia carioca do show na casa Vivo Rio.
Moldada pela banda formada por Aline Gonçalves (flautas e clarinete), Amanda Camargo (piano), Antonio Loureiro (bateria), Ciro Bellucci (violões) e Fabio Sá (baixo), todos músicos que são multi-instrumentistas, a textura sonora dos arranjos de Maria Beraldo se situa no território da experimentação, mas no limite da acessibilidade pelo público que segue Zélia desde 1994, ano da projeção nacional da cantora.
Maleável, essa textura sonora serve bem tanto à concretude urbana de “Olhos de cimento” (Pedro Luís e Zélia Duncan, 2026), número de pressão quase roqueira, quanto à delicadeza da paisagem solar em que se ambienta “Meu plano” (2026), parceria de Zélia com Ná Ozzetti.
Ficou evidente no álbum “Agudo grave” que nem todas as músicas do repertório autoral estavam à altura da sonoridade arrojada do disco. Essa sensação ainda permanece no show, em uma ou outra música, como “Importante” (Alberto Continentino e Zélia Duncan, 2026), mas em menor grau.
O repertório do álbum cresce no show dirigido pela própria Zélia Duncan em parceria com Simone Mina, criadora do cenário que traduz em imagens – móbiles que parecem cristais aos olhos do público – a fluidez e a leveza do show, ainda que haja certo peso na batida quase marcial da bateria de Antonio Loureiro em “Sentidos” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994), uma das músicas antigas que dão a sensação de que tudo soa novo de novo na voz da cantora.
Na cena, o gestual teatral da cantora – que já atuou como atriz, cabe lembrar – realça o sentido dos versos de músicas como “E aí, IA?” (2026), outra das três parcerias de Zélia Duncan com Alberto Continentino que fazem parte do repertório do álbum “Agudo grave”.
Outro parceiro de Zélia no álbum “Agudo grave”, Lenine injetou vitalidade no show ao entrar em cena para cantar com a anfitriã “Maravilha disforme” (2026) e uma canção de lavra solitária, “Meu xamego” (2025), antes de voltar para o bis para se juntar a Zélia e a Maria Beraldo na viagem refrescante pelo reggae “Nos lençóis desse reggae” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994).
Novas ou antigas, como a sempre aliciante “Enquanto durmo” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1996), as músicas se harmonizam na cena do show “Agudo grave”, quebrando a barreira do tempo e sinalizando que o tempo de Zélia Duncan é hoje.
A propósito, as incursões feitas por Zélia Duncan em território alheio são todas frutíferas. Pérola do aclamado álbum “Blue” (1971), obra-prima da discografia da cantora e compositora canadense Joni Mitchell, norte da estrada folk percorrida por Zélia, a canção “All I want” refaz o convite à dança, à liberdade e ao risco de amar.
E, se a vida é sonho, a lembrança sagaz de “Sonho impossível” (“The impossible dream” – Joe Darion e Mitch Leigh, 1965, em versão em português de Chico Buarque e Ruy Guerra, 1972) – acoplada em medley com “Que tal o impossível?” (1988), música de Itamar Assumpção – arrebata no arremate do show.
E o fato é que, sim, sob a revigorante direção musical de Maria Beraldo, Zélia Duncan faz brotar uma flor do impossível chão do show “Agudo grave”.
1. “Agudo grave” (Lucina e Zélia Duncan, 2026).
2. “Meu plano” (Ná Ozzetti e Zélia Duncan, 2026).
3. “Me revelar” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 2001).
4. “Pontes no ar” (Alberto Continentino e Zélia Duncan, 2026).
10. “Resolvidinho” (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2026).
11. “Voz” (Maria Beraldo e Zélia Duncan, 2026) – com Maria Beraldo.
13. “Tua boca” (Itamar Assumpção, 1993) – com Maria Beraldo.
14. “Maravilha disforme” (Lenine e Zélia Duncan, 2026) – com Lenine.
15. “Meu xamego” (Lenine, 2025) – com Lenine.
16. “All I want” (Joni Mitchell, 1971).
- “Catedral” (“Cathedral song” – Tanita Tikaran, 1988
19. “Olhos de cimento” (Pedro Luís e Zélia Duncan, 2026).
20. “Pan y leche” (Maurício Pereira, 1995).
- “Sonho impossível” (“The impossible dream” – Joe Darion e Mitch Leigh, 1965
23. “Que tal o impossível?” (Itamar Assumpção, 1988).
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