O pêndulo do voto evangélico: do apoio ao PT à guinada à direita.
A população evangélica está em crescimento no Brasil e tem peso cada vez maior nas eleições. Na Região Metropolitana do Rio, essa transformação é ainda mais evidente: dos 22 municípios da Grande Rio, os católicos são maioria em apenas quatro, incluindo a capital.
Sem o peso demográfico da cidade do Rio, os evangélicos já seriam o maior grupo religioso da região.
Eles são o foco do segundo episódio da série especial Voto Pendular, do Jornal da Globo. A jornalista Renata Lo Prete e Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), passam por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador ao longo de quatro episódios.
Segundo a Quaest, os chamados eleitores independentes representam 32% do eleitorado brasileiro. São pessoas que mudaram de voto nas duas últimas eleições e não mantêm uma identificação permanente com um campo político.
No primeiro episódio, a série ouviu entregadores, profissionais da beleza e empreendedores de São Paulo para entender o chamado eleitor independente — pessoas que já mudaram de voto e que não mantêm alinhamento permanente com um único campo político.
No Rio, a reportagem muda o foco para os evangélicos e encontra um grupo diverso, cujas preocupações vão muito além da religião. Violência, família, trabalho, saúde, educação e a qualidade das propostas dos candidatos aparecem nas conversas.
Os entrevistados são os empresários Leandro Lima, Rodrigo Vituriano e Marcos Hiraguch, a atendente Herika Oliveira e os pastores Alex Azevedo e Lenêa de Oliveira Rosa.
Evangélicos mudaram de posição nas últimas eleições.
Apesar da diversidade entre as denominações, os evangélicos votaram majoritariamente em candidatos de direita nas últimas eleições presidenciais. Mas, segundo Felipe Nunes, esse comportamento é relativamente recente.
Segundo ele, a mudança começou em 2014 e se consolidou a partir de 2018, quando os evangélicos passaram a formar o principal grupo de apoio ao bolsonarismo. O movimento se manteve em 2022, mas há sinais de mudanças para a eleição de 2026.
A reportagem começa pela Penha, bairro tradicional da Zona Norte do Rio e conhecido pela Igreja da Penha, construída no alto do morro e historicamente ligada ao catolicismo.
Mas o perfil religioso da região mudou. Segundo Nunes, a Penha teve uma forte migração de votos entre 2018 e 2022. Bolsonaro havia conseguido uma vantagem expressiva no bairro em 2018.
Quatro anos depois, a disputa foi muito mais equilibrada.
Ao mesmo tempo, a presença evangélica passou a fazer parte do cotidiano do bairro. “É uma coisa que transborda para o cotidiano do bairro, para a cultura”, afirmou Nunes.
Um exemplo está a poucos minutos da Igreja da Penha: o Cachorro-Crente, uma lanchonete temática criada para o público cristão. Leandro Lima, um dos sócios e idealizadores do negócio, contou que a ideia surgiu depois de um culto.
O espaço tem música gospel, versículos bíblicos como parte da decoração e uma proposta de ambiente familiar. Rodrigo Vituriano, outro sócio, diz que a identidade do estabelecimento começa pelo próprio atendimento.
Marcos Hiraguch, também empresário, diz que o local acabou se tornando um ponto de encontro para moradores.
Mas, quando a conversa chega à política, aparece um tema que ultrapassa a religião: a violência.
Violência e família entram na conversa sobre política.
A Penha fica próxima dos complexos do Alemão e da Penha e convive com confrontos armados, assaltos, assassinatos e operações policiais. Marcos diz que a violência faz parte da rotina de quem vive na região.
A segurança, porém, não aparece sozinha. Família e religião também entram na definição das prioridades. Marcos conta que percebeu uma mudança na relação entre igreja e política.
Para Marcos, candidatos que defendem valores relacionados à família têm maior apelo entre os evangélicos.
Ele próprio explica o que entende por essa preocupação. “Eu tenho um filho pequeno, tenho um neto pequeno. Então, eu penso nessa questão de gênero. Eu fico preocupado com isso.”.
Nunes diz que a percepção observada na Penha coincide com o que aparece nas pesquisas.
Segundo ele, essa combinação representa uma mudança de padrão.
Nem todos os moradores, porém, colocam a religião no centro da decisão eleitoral. Erika, auxiliar de cozinha da lanchonete, diz que pensa principalmente em questões do cotidiano.
Moradora de uma área que considera difícil, ela também citou a situação financeira das famílias.
Marcos também faz uma distinção entre diferentes grupos da população. “Um empreendedor, dependendo do que ele faz, não conta muito com a política. Agora, a população em geral.
A população em geral, sim. Conta com o governo. Com uma nova eleição, sempre tem aquela nova esperança.”.
Nova Iguaçu: onde evangélicos já são o maior grupo religioso.
A segunda parada da reportagem é Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O município é o segundo maior colégio eleitoral da região e um dos locais onde os evangélicos já formam o maior grupo religioso, à frente dos católicos.
Para Nunes, a cidade também chama atenção pelo comportamento eleitoral. “Nova Iguaçu é um caso interessante para a gente analisar, porque foi um lugar em que o resultado pró-Bolsonaro foi muito menor em 2022 do que tinha sido em 2018”, afirmou.
A equipe visita uma Assembleia de Deus no bairro Parque Flora, uma das pequenas igrejas espalhadas pelos bairros que, segundo Nunes, ajudam a explicar o crescimento da população evangélica.
Na igreja, Renata Lo Prete conversa com Lenêa, que frequenta o local desde a infância.
A relação de Lenea com a igreja também é familiar. O pai dela dirigiu a congregação antes de se tornar pastor; depois da morte dele, o irmão assumiu e, posteriormente, o marido de Lenea passou a comandar a igreja.
A congregação também desempenha um papel social na comunidade. Ao falar sobre os problemas enfrentados pelos moradores, Lenêa cita dificuldades de acesso a serviços públicos, emprego e saúde.
Ela conta que está há mais de um ano esperando por uma cirurgia no joelho e também relata dificuldades enfrentadas pela filha na busca por emprego. A experiência influencia a forma como ela enxerga as eleições.
Apesar da forte identidade religiosa, Lenêa diz que não escolhe candidatos apenas por pertencerem a determinado campo político. Ela aponta uma característica que considera especialmente negativa nos candidatos: os ataques pessoais.
A fala chama a atenção de Felipe Nunes. Segundo o cientista político, depois de dois ciclos eleitorais marcados pela polarização, parte do eleitorado começa a demonstrar cansaço com o confronto.
A percepção aparece também dentro das igrejas.
A política também divide as igrejas.
A reportagem visita ainda uma igreja batista para entender como as discussões políticas chegam às comunidades religiosas. O pastor entrevistado, Alex Azevedo, destaca que a tradição batista defende a separação entre igreja e Estado, mas reconhece que é difícil manter a política completamente fora das conversas.
Ele brinca com a diversidade de opiniões dentro da própria denominação. “Tem uma brincadeira entre nós, pastores batistas, de que numa reunião de quatro pastores batistas há, no mínimo, seis posicionamentos diferentes.”.
Segundo ele, há batistas mais tradicionais e outros mais progressistas. “Isso é muito legal na nossa denominação. Isso é algo que eu vejo com muita alegria.”.
O pastor afirma que as discussões políticas podem acontecer, mas não deveriam comprometer a convivência entre os fiéis.
Ele lembra que as eleições recentes provocaram conflitos em algumas comunidades. “A gente verificou isso nas últimas eleições, quando igrejas se dividiram, irmãos brigaram com irmãos.”.
Para ele, a saída está na convivência entre diferentes opiniões. “Com tolerância, com verdade, sem partidarismo, sem radicalismos.”.
O segundo episódio da série mostra que o crescimento dos evangélicos não significa a existência de um eleitorado com uma única visão política. Dentro das igrejas, as diferenças também aparecem.
Para Nunes, entender esse eleitorado exige olhar para além da religião. A mudança demográfica ajuda a explicar o peso crescente dos evangélicos nas eleições, mas as escolhas de voto também são influenciadas pelas experiências concretas de quem vive nas comunidades.
E, para parte desses eleitores, a eleição parece estar deixando de ser apenas uma disputa entre campos políticos para se transformar também em uma busca por respostas para problemas cotidianos.
A série segue agora para o próximo colégio eleitoral, Belo Horizonte, em busca de outros personagens e de novas pistas sobre os eleitores que podem influenciar o resultado das eleições presidenciais de 2026.
A Penha, na Zona Norte do Rio, é um dos lugares escolhidos para observar essa mudança.
Fontes
Informação baseada em material público de G1 Política, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.