O abastecimento de diesel no Brasil está garantido até o fim de outubro, apesar da redução das importações e das restrições à oferta internacional do combustível.
Abastecimento de novembro ainda é incerto; governo amplia subvenções e possível retomada das vendas russas pode elevar a oferta.
O país chega à reta final da eleição presidencial com estoques suficientes para atender à demanda, mas ainda enfrenta incertezas sobre novembro.
Para evitar uma crise de abastecimento, o governo federal ampliou as subvenções ao diesel importado, enquanto a flexibilização das restrições russas às exportações abre uma nova possibilidade de fornecimento.
O presidente-executivo da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), Sérgio Araújo, afirmou ao Poder360, na 6ª feira (9.out. 2026), que “o abastecimento do mês de outubro já está garantido“.
A situação de novembro, no entanto, depende de novas contratações. “Estamos aguardando o fechamento de novas cargas. Por ora, o volume ainda está bem baixo“, declarou.
O Brasil importa cerca de 25% do diesel que consome. O resto é atendido por poucas refinarias privadas e pela Petrobras. Araújo explicou que as importações realizadas em setembro foram suficientes para atender ao consumo nacional, mas não permitiram recompor os estoques.
Dados do ComexStat, sistema de estatísticas do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), mostram que as importações brasileiras de diesel caíram 26,5% em setembro de 2026, na comparação com o mesmo mês de 2025.
A retração ocorre em um cenário desfavorável aos importadores privados. A alta dos preços internacionais ampliou a diferença entre o custo de aquisição do diesel no exterior e os preços praticados pela Petrobras no mercado doméstico.
Essa defasagem reduz a competitividade do combustível importado, uma vez que as empresas privadas precisam arcar com custos mais elevados para disputar mercado com a estatal.
Segundo Araújo, a ampliação dos incentivos à importação e a perspectiva de retomada das vendas russas podem contribuir para reduzir o risco de falta do combustível no próximo mês.
A medida busca estimular a entrada de combustível estrangeiro e preservar o abastecimento nacional.
O pacote foi anunciado a pouco mais de duas semanas do 2º turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. Lula também zerou os tributos federais sobre a gasolina e elevou os incentivos ao etanol.
As intervenções, no entanto, ainda não conseguiram interromper a alta dos preços do diesel nas bombas. Dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) mostram que o combustível ficou mais caro pela 5ª semana consecutiva, em plena reta final da disputa eleitoral.
Os valores são os maiores registrados desde maio e abril, respectivamente. Desde o fim de agosto, o diesel comum acumula alta de 7,9%, enquanto o S-10 subiu 7%.
O Brasil não é o único país a enfrentar dificuldades no abastecimento de derivados de petróleo. A crise é global e está relacionada às restrições na capacidade de refino, agravadas pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
Com menos refinarias disponíveis para atender ao mercado internacional, países importadores passaram a disputar uma oferta mais limitada de diesel.
Em entrevista ao Poder360, o presidente do Barla (Instituto Brasileiro de Ambiente Regulatório e Liberdade), Chicão Bulhões, afirmou que a crise atual não decorre da escassez de petróleo bruto, mas da dificuldade de transformar a matéria-prima em combustíveis.
O problema afeta especialmente países como o Brasil, que produzem petróleo em quantidade elevada, mas dependem da importação de derivados.
A origem do combustível também mudou. As restrições impostas pela Rússia às exportações, depois dos ataques ucranianos às suas refinarias, reduziram sua participação no mercado brasileiro de 27% para 6%.
A Arábia Saudita, afetada pela guerra no Oriente Médio e pelas dificuldades de escoamento, deixou de fornecer diesel ao Brasil em setembro, depois de responder por 12% das importações no mesmo período de 2025.
O resultado foi uma concentração das compras brasileiras nos Estados Unidos, cuja participação nas importações nacionais passou de 46% para 74% em 1 ano. A mudança ampliou a exposição do Brasil a eventuais restrições norte-americanas às exportações, possibilidade considerada pelo governo de Donald Trump diante da pressão para reduzir os preços dos combustíveis antes das eleições legislativas de novembro.
A preocupação com o abastecimento levou os países do G7 a anunciarem a liberação coordenada de 100 milhões de barris de petróleo bruto e diesel de suas reservas estratégicas.
A medida foi anunciada em 2 de outubro e projeta entregas ao longo de 4 meses, com uma parcela substancial de diesel nos primeiros 20 dias. O grupo também se comprometeu a não restringir o comércio de produtos energéticos entre países parceiros.
Uma semana depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano, direita), anunciou um acordo com o presidente russo, Vladimir Putin, para ampliar a oferta de diesel no mercado internacional.
Segundo o norte-americano, a Rússia disponibilizará 300 mil toneladas do combustível, outras 500 mil em novembro e mais 1 milhão posteriormente.
Para viabilizar a medida, Washington suspendeu temporariamente parte das sanções sobre o diesel russo até abril de 2027. A decisão busca conter a alta dos combustíveis antes das eleições legislativas norte-americanas (as midterms), mas foi criticada pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que afirmou que a flexibilização das sanções favorece o financiamento da guerra pela Rússia.
Além das dificuldades imediatas, Bulhões defende que o Brasil crie uma política de reservas estratégicas de petróleo e amplie sua capacidade de refino. Ele avalia que o país é vulnerável a choques internacionais por depender de importações de derivados e não manter estoques estratégicos de petróleo comparáveis aos de grandes consumidores mundiais.
O especialista defende a formação de reservas que possam ser utilizadas em momentos de interrupção das cadeias internacionais de abastecimento, além da criação de condições para novos investimentos em refinarias.
Essa prática é comum na China, nos Estados Unidos e em países da Europa. Para ele, a crise atual pode se tornar o novo normal, pelo menos no médio prazo.
Bulhões também critica uma resposta do governo à crise centrada na Petrobras. Segundo ele, as medidas adotadas favorecem a atuação da estatal, enquanto os importadores privados enfrentam dificuldades para competir com os preços praticados no mercado doméstico.
A disparidade em relação aos valores internacionais, mesmo com as subvenções, desestimula novas importações e concentra na Petrobras a responsabilidade pelo abastecimento, ampliando a vulnerabilidade do país a eventuais restrições na oferta externa.
Ele argumenta que o modelo de subvenções acaba transferindo recursos de exportadores de petróleo para a estatal. Isso porque parte dos subsídios é bancada com o imposto sobre a exportação da commodity, que é pago tanto pela Petrobras quanto por empresas privadas.
O tributo está sendo questionado na Justiça por produtores independentes de petróleo. Há ainda o risco de ele ser anulado e essas empresas serem ressarcidas, o que criaria um imbróglio no planejamento orçamentário do governo, que conta com essa receita para pagar medidas de contenção de preço dos produtos refinados.
A questão, afirma Bulhões, é estrutural e não termina com as eleições brasileiras ou norte-americanas.
Em números
- Segundo o norte-americano, a Rússia disponibilizará 300 mil toneladas do combustível, outras 500 mil em novem
- Bro e mais 1 milhão posteriormente
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