É um conselho sábio que todos os líderes franceses fazem questão de seguir: jovens nas ruas são sinônimo de problemas.
Desde os protestos estudantis de maio de 1968 — descritos de forma memorável pelo presidente Charles De Gaulle como "chienlit" (literalmente "defecação na cama", ou seja, caos) – todos os governos têm medo da juventude francesa revoltada.
Por quê? Porque os movimentos juvenis são imprevisíveis e amorfos, muitas vezes sem uma estrutura clara com a qual se possa negociar. Porque quando eles protestam, outros grupos se juntam a eles.
Além disso, como são jovens, o público tende a simpatizar com eles. E porque, se a polícia errar e provocar ferimentos ou algo pior, as consequências são incalculáveis.
E as eleições presidenciais estão a poucos meses de distância.
Por todas essas razões, quando a juventude revoltada está nas barricadas, os governos agem com muita cautela.
Neste momento, os adolescentes franceses estão nas barricadas e, embora não estejam visivelmente revoltados (o clima é mais de excitação), certamente estão deixando o governo do presidente Emmanuel Macron "apavorado", segundo descrição do jornal Le Monde.
Um movimento que começou há quase duas semanas na área de baixa renda de Seine-Saint-Denis, no norte de Paris, espalhou-se por todo o país nos últimos dias.
Na quinta-feira (1/10) – o ponto mais crítico até agora – centenas de liceus (escolas onde jovens de 15 a 18 anos concluem seus estudos) estavam sendo bloqueados.
Na sexta-feira, a situação havia melhorado, mas cerca de 400 liceus permaneceram fechados para proteger funcionários e alunos. As universidades estão começando a seguir o exemplo.
A violência eclodiu. Na quinta-feira, o salão principal de um liceu em Nantes foi destruído por um incêndio. Incêndios menores, numerosos demais para mencionar, foram provocados nos portões de entrada de escolas em todo o país.
O prejuízo estimado é de milhões de euros.
Segundo o Ministro da Educação, Édouard Geffray, 65 membros do corpo docente, incluindo 40 diretores de escolas, ficaram feridos.
A maioria dos funcionários feridos afirmou que as pessoas com quem se depararam... não eram seus próprios alunos", disse ele.
Além disso, o governo afirma que cerca de 300 policiais e bombeiros receberam atendimento médico devido aos ferimentos, e aproximadamente 2 mil pessoas – principalmente menores de idade – foram detidas.
Por sua vez, grupos estudantis relatam ter uma longa lista de pessoas feridas pela polícia. Dois adolescentes sofreram graves lesões oculares e um perdeu vários dentes.
O problema já seria bastante complexo se se resumisse apenas a atender às reivindicações dos manifestantes. Mas existe outra dimensão – política e social – que torna esta crise estudantil muito mais perigosa do que no passado.
As reivindicações existem, ainda que permaneçam vagas. Elas dizem respeito à falta de dinheiro e à necessidade de mais professores, turmas menores e melhores instalações.
Em relação a esses assuntos, muitos na França concordariam com os adolescentes. Certamente, usar protestos para exigir verbas do governo é um hábito tão arraigado no país que até mesmo os governos o consideram legítimo.
E, de fato, a situação no sistema educacional está piorando, devido à escassez de recursos.
Esta semana, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu publicou sua proposta de orçamento para o próximo ano. O lema é "Mais cortes – e desta vez é sério.
Resta saber se ele conseguirá ou não retirar 54 bilhões de euros dos gastos públicos, como promete.
Mas é óbvio que a era da generosidade pública para apaziguar a agitação social na França está agora no fim. Os estudantes que exigem uma enfermeira escolar extra ou isolamento térmico no refeitório provavelmente ficarão decepcionados.
Mas essa é a menor das preocupações.
O temor muito maior é que esses protestos estudantis estejam sendo manipulados pela extrema esquerda – e que a violência dos últimos dias seja um prenúncio do que aguarda uma sociedade perigosamente polarizada no ano das eleições que se aproxima.
Para a direita e o centro, não há dúvida de que por trás dos problemas estudantis está a mão astuta do partido França Insubmissa (LFI) e de seu popular candidato à presidência, Jean-Luc Mélenchon.
Líderes da LFI têm aparecido regularmente ao lado dos estudantes – principalmente no subúrbio parisiense de Saint-Denis, cujo prefeito, Bally Bagayoko, foi criticado por dizer que "a violência às vezes pode ser legítima.
Um relatório interno preparado para o departamento de polícia de Paris, que vazou para a mídia, analisou o movimento em Seine-Saint-Denis. A conclusão foi de que os estudantes estavam sendo "incitados por elementos de extrema esquerda de grêmios estudantis.
O comunicado afirmava que as tensões "poderiam fazer parte de uma estratégia para inflamar os ânimos... com o objetivo de impor suas ideias antes das eleições nacionais.
Para sustentar sua conclusão, os autores do relatório citaram a presença de manifestantes que não são eles próprios estudantes do ensino médio, a imprecisão das reivindicações, o hasteamento de bandeiras palestinas e argelinas e o uso de táticas – como a convocação de protestos suplementares em delegacias de polícia – que fazem parte do manual da esquerda radical.
A LFI nega veementemente ter feito algo além de oferecer seu apoio natural a um movimento que considera legítimo. Na quinta-feira, Mélenchon pediu aos estudantes que evitassem a violência, "que só serve aos interesses de nossos inimigos.
Mas seus oponentes acreditam que o veterano de 75 anos – que tem boas chances de chegar ao segundo turno das eleições presidenciais em maio, provavelmente contra a candidata de extrema-direita Marine Le Pen – sabe exatamente o que está fazendo.
As pesquisas mostram que ele tem um apoio massivo – cerca de 40% – entre os jovens de 18 a 24 anos na França, e que esse apoio se concentra nos subúrbios populosos e com alta imigração das cidades.
Mas os jovens também são os que mais se abstêm nas eleições francesas, então a estratégia – à medida que as eleições se aproximam – será a de dar lembretes constantes a essa parcela da população de que a LFI está ao seu lado e que o seu voto pode contar.
Se isso será suficiente para garantir a vitória de Mélenchon é outra questão. Ele certamente deve levar a sério as pesquisas, que mostram uma derrota esmagadora para Le Pen em um segundo turno.
Se isso acontecer, a França estará em um território muito instável – e os protestos dos jovens nos últimos dias terão sido, de fato, um presságio disso.
Em números
- Resta saber se ele conseguirá ou não retirar 54 bilhões de euros dos gastos públicos, como promete
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