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Economia

Você conseguiria manter seu padrão de vida sem o patrimônio do seu cônjuge?

Viver pelo patrimônio de um dos cônjuges pode elevar o padrão da família e também aumentar sua dependência financeira

5 min de leitura
Economia — imagem padrão

Imagine que você sempre tenha viajado de classe econômica e se case com alguém que prefere e pode pagar por voos de executiva. Nas primeiras viagens, a solução parece simples: essa pessoa paga a diferença.

Você ganha conforto sem gastar mais e ela mantém o padrão a que está acostumada. Parece um arranjo perfeito. Mas o que acontece quando essa mesma lógica começa a definir a casa, o carro, a escola dos filhos e praticamente toda a vida do casal.

Um cliente vive uma situação parecida. Ele se casou com uma mulher que havia recebido uma herança substancial e possuía patrimônio muito superior ao dele. Os dois optaram pelo regime de separação total de bens.

A diferença patrimonial permitiu que ele passasse a usufruir de uma vida mais confortável do que sua renda e seu patrimônio, isoladamente, poderiam sustentar.

Não havia nada de errado nisso. Se um casal dispõe dos recursos, é natural que queira aproveitá-los. A questão que surgiu durante o planejamento foi outra: aquele padrão de vida pertencia financeiramente aos dois ou dependia essencialmente do patrimônio de apenas um.

Essa pergunta é especialmente importante porque usufruir de um patrimônio durante o casamento não significa ser proprietário dele. No caso desse casal, a separação patrimonial tornava ainda mais relevante entender quais recursos efetivamente estariam disponíveis a ele na ausência dela, algo que depende também do planejamento sucessório e das circunstâncias da família.

É aí que uma discussão sobre padrão de vida se transforma em planejamento financeiro. Não basta olhar quanto o casal possui hoje. É preciso entender quanto desse patrimônio estaria efetivamente disponível para o cônjuge, quais outras fontes de recursos existiriam e quais despesas poderiam ser reduzidas.

Há uma diferença importante entre conseguir usufruir determinado padrão e conseguir sustentá-lo.

É relativamente simples deixar de viajar de executiva, trocar restaurantes caros por opções mais econômicas ou reduzir gastos com lazer. É muito mais difícil mudar rapidamente de casa, retirar os filhos da escola ou reorganizar toda a estrutura familiar.

Alguns luxos são reversíveis. Outros se transformam em compromissos.

O mesmo problema aparece quando a diferença não vem de uma herança, mas da renda. Se um dos cônjuges responde pela maior parte do dinheiro que entra na família, o padrão construído pelos dois pode depender essencialmente da capacidade de trabalho de apenas um.

Uma demissão, uma incapacidade ou a morte dessa pessoa pode produzir uma mudança financeira muito maior do que a família imaginava.

Por isso, elevar o padrão de vida exige mais do que perguntar se existem recursos hoje para pagá-lo. É preciso avaliar se patrimônio, reservas, planejamento sucessório e seguros seriam suficientes para preservar aquilo que realmente importa caso a principal fonte de recursos deixasse de existir.

Existe aí um paradoxo: quanto mais o patrimônio de um dos dois eleva o padrão de vida da família, maior pode se tornar a distância entre a vida que o outro leva e aquela que conseguiria sustentar sozinho.

Há ainda outro risco menos evidente. Quem possui menos patrimônio pode passar anos vivendo em um padrão elevado e, ao mesmo tempo, formar pouca reserva própria.

Seu conforto aumentou, mas sua capacidade de sustentar sozinho aquela vida não acompanhou a mesma evolução.

Isso não significa que o casal deva organizar toda a vida pela capacidade financeira de quem possui menos. Seria igualmente estranho exigir que alguém com renda ou patrimônio elevados renunciasse ao padrão que pode proporcionar à família.

Talvez seja mais útil separar aquilo que apenas melhora a vida hoje daquilo que cria compromissos para amanhã. Viajar melhor durante as férias é muito diferente de assumir uma moradia, uma escola ou outras despesas que precisarão ser mantidas durante muitos anos.

No caso do meu cliente, portanto, o planejamento não deveria responder apenas se o casal podia pagar pelo padrão atual. Isso já estava claro. A pergunta relevante era quanto dessa vida ele conseguiria preservar se um dia os recursos que hoje sustentam a diferença não estivessem mais disponíveis para ele.

Quando existe grande diferença patrimonial ou de renda entre os cônjuges, essa conta deveria ser feita antes que o extraordinário se transforme em habitual. Patrimônio próprio, recursos sucessórios, reservas e seguros podem preencher parte da diferença.

Outras despesas talvez precisem ser revistas.

Um casal pode escolher viver pelo padrão que o patrimônio de um dos dois permite. O planejamento começa quando os dois também entendem o que será necessário para que essa vida não dependa exclusivamente da presença e da capacidade financeira de uma única pessoa.

Afinal, o problema não está em alguém proporcionar uma vida melhor a quem ama. Está em construir uma vida que só permanece de pé enquanto essa pessoa consegue continuar financiando-a.

Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.

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