Porto Feliz (SP) Um ano após ser destruída por um vendaval, a fábrica de motores da Toyota em Porto Feliz (interior de São Paulo) retoma parcialmente as operações nesta terça (22).
Os blocos e cabeçotes de alumínio voltam a ser fundidos na unidade, que hoje se resume a um galpão em meio a canteiros de obras.
O fenômeno climático definido como uma microexplosão atmosférica arrancou o telhado, torceu vigas e fez placas metálicas voarem como papel no dia 22 de setembro de 2025.
O temporal começou às 13h28 e, em instantes, a energia caiu. "Quando isso acontece, os funcionários vão para uma área segura e controlada", disse Gilberto Paulino Junior, diretor industrial da Toyota do Brasil.
Três minutos depois, o teto desabou em cima da linha de montagem, que é onde estaria a maior concentração de funcionários.
Paulino não estava na linha de produção naquele momento. Ao telefonar para a fábrica, ouviu gritos ao fundo. Às 13h50, o gerente confirmou que não houve mortes, mas havia funcionários com ferimentos leves.
Veja fotos da fábrica da Toyota em Porto Feliz (SP) após temporal.
Carregando... A avaliação inicial dos danos foi feita ainda no dia do desastre, às 18h. Ninguém sabia o que fazer naquele momento. "Ficamos travados", afirmou Paulino.
Tivemos que cobrir todos os equipamentos, estávamos sem telhado. Foi algo extremamente emocionante.
A equipe técnica da Toyota verificou que grande parte da fundição era irrecuperável. O alumínio havia se solidificado dentro dos fornos. No dia seguinte (23 de setembro de 2025), foi decidido que os mais de 800 equipamentos da linha de montagem precisavam ser recolhidos.
Sem motores, a produção na fábrica de automóveis localizada em Sorocaba (interior de São Paulo) foi interrompida. No mês seguinte seria lançado o Yaris Cross, cuja estreia foi adiada.
A montagem só foi retomada em 3 de novembro, mas apenas com as versões híbridas da linha Corolla. Nesses casos, a motorização é importada do Japão e da Indonésia.
No dia 26 de setembro de 2025, a empresa definiu como seria feita a retomada da produção. Era preciso achar um novo local na região, para que se preservasse a logística.
Sorocaba e Porto Feliz são cidades vizinhas.
O local escolhido foi o condomínio empresarial DVR, que fica a 11 km da linha de montagem de veículos. Um galpão foi dividido seguindo a lógica da produção de motores.
A transferência dos equipamentos teve grande complexidade: nem todos os espaços tinham piso capaz de suportar o peso dos robôs e demais aparelhos.
Recém-inaugurada, a unidade escolhida só tinha iluminação, sendo necessário fazer a instalação de terminais elétricos para energizar os equipamentos. "Alguns dizem que foi um 'copy/paste' [copia e cola], mas não foi simples assim", disse Paulino.
Ele explicou que colunas precisaram ser contornadas.
O início da montagem no DVR ocorreu no dia 26 de janeiro. O primeiro motor finalizado lá foi um 1. 5 híbrido flex, que recebeu a assinatura dos funcionários e foi colocado em exibição no local.
Desde então, 42 mil motores já foram construídos na unidade.
A empresa japonesa promoveu uma visita ao espaço provisório. O local pareceu apertado, e os funcionários tinham pouco espaço para trabalhar. Entretanto, essa é uma premissa do método Kanban, o sistema de produção desenvolvido pela Toyota.
As estações de trabalho ficam próximas das prateleiras com peças para que o operário não precise se deslocar continuamente enquanto monta os componentes.
Os moldes para fundição dos blocos 1. 5 que equipam o Yaris Cross e dos 2. 0 da linha Corolla haviam sido transferidos para o Japão. Esse trabalho não poderia ser feito no galpão provisório, e foi por isso que tal etapa virou prioridade no trabalho de reconstrução da fábrica original de Porto Feliz.
Toda essa história foi contada em uma sala tratada como secreta no condomínio empresarial DVR. A equipe da Toyota disse se tratar de um espaço com informações confidenciais.
Para leigos, eram apenas planilhas coladas nas paredes e repletas de siglas indecifráveis.
A retomada desta terça (22) na fábrica original ocorre em um local bem diferente da linha de montagem anterior, que completaria dez anos em 2026. A estrutura está 45% mais resistente, com colunas de metal, mas apenas 1/6 da área total está pronta.
O retorno de todas as operações fabris na unidade só deve ocorrer em 2028.
Na fase atual, a área de fundição conta com 150 funcionários. No total, a unidade tem 830 trabalhadores: parte está no galpão provisório do DVR, enquanto outros foram remanejados para a fábrica de automóveis de Sorocaba.
Após o episódio de 2025, a Toyota tem dedicado maior atenção aos fenômenos climáticos e montou um comitê que cuida das possíveis consequências do El Niño. Todo processo de reconstrução considera que podem ocorrer novos fenômenos climáticos extremos na região.
Por contrato, a apólice de seguros não contemplou o lucro cessante nem foi suficiente para cobrir todo o prejuízo —basicamente, só restou o piso. A montadora não revelou quanto está sendo gasto em Porto Feliz.
Funcionário trabalha na área de fundição da fábrica de motores da Toyota, em Porto Feliz (interior de São Paulo) - Divulgação Dê um conteúdo Carregando... benefício do assinante Você tem 7 acessos por dia para dar de presente.
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Em números
- O local escolhido foi o condomínio empresarial DVR, que fica a 11 km da linha de montagem de veículos
- Desde então, 42 mil motores já foram construídos na unidade
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