O mercado global de small e mid caps (empresas de pequena e média capitalização) está diante de um cenário em que a proporção de companhias que oferecem um retorno em dividendos superior ao dos títulos públicos de longo prazo despencou para mínimas históricas.
O alerta vem do mais recente relatório do JPMorgan, “The SMid View”, assinado pela equipe de estratégia global liderada por Eduardo Lecubarri.
De acordo com o documento, desde o início de 2024, o percentual de small e mid caps nos Estados Unidos com dividend yield acima do yield do título de 30 anos do Tesouro americano caiu de 19% para apenas 9% — o menor patamar em 24 anos.
O movimento é acompanhado por dinâmica semelhante no Reino Unido e na Europa Continental.
O que está por trás da alta dos juros longos? O relatório aponta que a alta dos yields dos títulos de 30 anos não pode ser explicada apenas pelos catalisadores tradicionais — inflação, juros de curto prazo e crescimento do PIB real.
Desde 2023, o prêmio de prazo (term premia) nos Estados Unidos dobrou, atingindo níveis que historicamente só foram vistos após uma queda de mais de 70% na taxa básica de juros (Fed Funds Rate) — cenário que o banco considera improvável no momento.
A explicação, segundo os analistas, está no que chamam de “evento de 3 sigmas”: pela primeira vez na história, cerca de 60% do PIB mundial está nas mãos de governos com relação Dívida/PIB superior a 100% e com déficits fiscais elevados.
Ibovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa sobe com PETR4, aos 206 mil pontos.
Bolsas dos EUA recuam com forte alta do petróleo e preocupações com a inflação.
Em meio a esse cenário global de aperto, o Brasil aparece como uma das exceções mais interessantes para investidores em small e mid caps em busca de rendimento.
O relatório do JPMorgan traz um quadro global das small e mid caps com maior “excesso de yield” — definido como a diferença entre o dividend yield da ação e o yield do título de 30 anos do governo local — combinado com crescimento consistente de receita nos últimos três anos.
Das 164 ações globais que atendem a esses critérios, várias são brasileiras, e algumas se destacam pelos yields excepcionalmente altos, que seguem abaixo.
A Vulcabras (VULC3) lidera com folga: um dividend yield de 38,8% e um excesso de yield de 32,2 pontos percentuais acima do yield do título de 30 anos do governo brasileiro.
A empresa de calçados, conhecida por fabricar marcas como Olympikus, aparece como um dos destaques do setor de consumo discricionário.
Já as incorporadoras Direcional Engenharia (DIRR3), Cury Construtora (CURY3) e Plano & Plano (PLPL3) também figuram na lista, beneficiadas pelo ciclo de aquecimento do setor imobiliário brasileiro e por valuations atrativos.
No setor de transportes, a JSL (JSLG3) — coberta com recomendação Overweight (exposição acima da média, equivalente à compra) — oferece um dividend yield de 29,6% e um excesso de 23,0%.
O JPMorgan argumenta que a queda na proporção de ações com dividend yield superior ao dos títulos de 30 anos tem historicamente coincidido com uma desaceleração nos retornos futuros das small e mid caps em um horizonte de 12 meses.
Magalu ( LU3) segue como maior aposta? As varejistas com espaço para subir após rali.
Em vez de simplesmente procurar as ações mais sensíveis à queda dos juros, passou a ser necessário identificar onde ainda existe espaço para valorização.
Para o Brasil, no entanto, o cenário é mais favorável. Com a taxa básica Selic em 13,75% ao ano, o earnings yield (lucro sobre preço) das small caps brasileiras está em 7,9%, o que, descontado da taxa oficial, resulta em um excesso de yield negativo de 5,9%.
Apesar disso, as empresas listadas no screening global mostram que ainda há oportunidades para quem busca rendimento em um ambiente de juros elevados.
O banco também adicionou dois novos nomes ao seu portfólio modelo global de small e mid caps neste mês.
Befesa (BFSA GY) — empresa europeia de reciclagem de resíduos perigosos, com valor de mercado de € 1,4 bilhão, também classificada como overweight.
No portfólio para mercados emergentes (RoW), a Porto Seguro (PSSA3) — seguradora brasileira com recomendação overweight do analista Antonio Grespan — já figurava entre as posições, com um retorno total acumulado de 10,2% desde sua inclusão em janeiro de 2025.
O banco mantém sua recomendação de overweight para small e mid caps em relação às large caps nos mercados desenvolvidos (ex-Japão), uma visão que o banco adotou em novembro de 2023 e que, segundo eles, “parece estar funcionando e tem pernas para continuar”.
Shoppings ainda podem subir após rali eleitoral? JPMorgan vê alta de até 27%.
Multiplan (MULT3), Iguatemi (IGTI11) e Allos (ALOS3) seguem com recomendação de compra para o banco.
Para o investidor brasileiro, a mensagem é clara: em um mundo onde os juros longos sobem e comprimem os retornos das ações, as small e mids brasileiras ainda oferecem um oásis de rendimento — desde que se saiba onde procurar.
Em números
- Ibovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa sobe com PETR4, aos 206 mil pontos
- FSA GY) — empresa europeia de reciclagem de resíduos perigosos, com valor de mercado de € 1,4 bilhão, também classificada como overweight
Comentários
Participe da conversa. Comentários passam por moderação antes de aparecer.
Carregando comentários…