Na aposentadoria, deixará de fazer os aportes destinados a financiá-la. O objetivo é substituir o consumo, não o salário.
Mas esse consumo continuará igual? A aposentadoria não necessariamente custa menos. Ela custa diferente. Algumas despesas desaparecem, outras diminuem e outras podem crescer bastante, em momentos distintos.
Nos primeiros anos, a vida pode até ficar mais cara. Quem passou décadas trabalhando encontra tempo para viajar, frequentar restaurantes e realizar projetos adiados.
Um casal aposentado aos 60 anos pode gastar mais entre os 60 e os 70 do que gastava enquanto trabalhava.
Por outro lado, desaparecem gastos com transporte e refeições profissionais. A educação dos filhos provavelmente terminou, o financiamento imobiliário pode estar quitado e diminui a necessidade de comprar bens para estruturar a família.
Com a idade, o consumo também muda. Aos 80 ou 85 anos, muitas pessoas viajam menos, trocam de carro com menor frequência e reduzem gastos com lazer. Não é regra, mas ajuda a explicar por que as despesas podem diminuir em termos reais durante parte da aposentadoria.
Uma despesa, entretanto, tende a caminhar na direção contrária: saúde. Planos de saúde já têm mensalidades elevadas nas faixas etárias superiores e continuam sujeitos a reajustes.
Medicamentos e tratamentos também podem ganhar peso no orçamento. Em situações de perda de autonomia, cuidadores podem representar gastos ainda maiores.
Assim, a redução de outras despesas pode compensar parte do aumento com saúde e até diminuir o gasto total em termos reais. Isso não é garantido, especialmente quando surgem necessidades prolongadas de cuidados.
Há ainda outro detalhe: a inflação do aposentado pode ser diferente da média do país. Conforme a saúde ganha peso no orçamento, aumentos de planos, medicamentos e tratamentos passam a impactar mais seu custo de vida.
Corrigir tudo apenas pelo IPCA pode não refletir essa realidade. A inflação da parcela de saúde e cuidados pessoais no IBGE foi quase 26% maior que o IPCA na última década.
Também é necessário decidir se você aceita consumir parte do capital ou deseja preservá-lo para os filhos. Quem pretende manter o patrimônio corrigido pela inflação precisa de uma reserva maior com o tempo de benefício.
E uma conta que só funciona se os investimentos renderem exatamente o esperado para a taxa de retirada oferece pouca segurança de eventualidades.
Uma referência simples é a regra dos 300, derivada da conhecida regra dos 4%. Se seus investimentos proporcionarem retorno líquido de impostos e inflação de 4% ao ano, você precisaria de um patrimônio equivalente a 300 vezes sua retirada mensal para preservar o capital em termos reais.
Estar financeiramente pronto também não significa querer parar de trabalhar. Algumas pessoas continuam trabalhando por prazer ou propósito. A independência financeira oferece essa liberdade: trabalhar por escolha, não por necessidade.
Estar pronto para se aposentar não significa alcançar determinado patrimônio. Significa ter recursos suficientes para financiar a vida que deseja, mesmo com mudanças nas despesas e imprevistos.
Mas há uma variável capaz de mudar todas essas contas: o tempo. Financiar vinte anos de aposentadoria é muito diferente de financiar quarenta. E se você viver até os 100 anos.
Essa será a pergunta que encerra nossa série amanhã.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.
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