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'Ópera do malandro' de Chico Buarque se renova com cores vivas em montagem que mistura umbanda, Anitta e

4 min de leitura
'Ópera do malandro' de Chico Buarque se renova com cores vivas em montagem que mistura umbanda, Anitta e

Inspirado na narrativa de “A ópera do três vinténs” (1928), escrita pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898 – 1956) com música de Kurt Weill (1900 – 1950) e com base na “Ópera dos mendigos” (1728), criação original do dramaturgo inglês John Gay (1685 – 1732), o texto de Chico Buarque está todo lá.

No entanto, o texto reaparece renovado por subtextos e por referências do teatro clown, das religiões de matriz afro-brasileira – precisamente a umbanda dos exus evocados na cena de Farjalla – e até de Anitta, cujo emblemático funk “Vai malandra” (2017) é embutido no pot-pourri da abertura em que o elenco mixa “O malandro” (1978) – versão de Chico para “Mack the knife” (1928), tema da ópera original de Brecht e Weill – e “A volta do malandro” (1985), tema do filme adaptado do musical de teatro.

Situada por Chico na Lapa, bairro de alta concentração dos malandros cariocas, a trama da “Ópera do malandro” ressurge em cena sem um tempo definido, mas sempre atual por retratar a bandidagem vigente no Brasil desde que o samba é samba.

Na cena povoada por cafetões e policiais corruptos, algozes de prostitutas (símbolos do povo oprimido na narrativa de Chico), a bandidagem é representada tanto pelo casal de cafetões Fernandes de Duran (Edgar Bustamante) e Vitória (Totia Meirelles) quanto – em linhagem mais popular – pelo protagonista Max Overseas Navalha, personagem confiado a José Loreto (na temporada carioca, o ator Tiago Barbosa se alterna com Loreto no papel-título da ópera).

A escalação de Loreto se revela acertada. Solar, carismático e sedutor, José Loreto tem a verve de Max e torna crível a malandragem aliciante do personagem em atuação tão cativante que o redime da inabilidade vocal para entoar uma canção tão dilacerante como “Pedaço de mim” (1978), música confiada ao ator nos momentos finais da peça.

A propósito, a trilha sonora da “Ópera do malandro” é a melhor já produzida para um musical no teatro brasileiro. O fenomenal conjunto de canções da trilha atravessa gerações com poder para atrair ouvintes dentro e fora da cena.

No todo, o elenco honra esse cancioneiro, a começar pelas duas atrizes e (ótimas) cantoras que interpretam Terezinha e Lúcia, rivais na luta pelo coração e o corpo de Max.

Terezinha é Carol Costa, intérprete da canção intitulada justamente “Terezinha” (1977) – e apresentada na voz de Maria Bethânia um ano antes da encenação original da “Ópera do malandro” em gravação feita para o álbum “Pássaro da manhã” (1977) – e de “Tatuagem” (1973), canção anterior da trilha da peça “Calabar – O elogio da loucura” (1973), de Chico Buarque e Ruy Guerra.

O dueto de Carol Costa e Marya Bravo no bolero “O meu amor” – standard que extrapolou os limites da cena ao ser gravado pela recorrente Maria Bethânia com Alcione no álbum “Álibi” (1978) – soa igualmente arrepiante.

Alguns números antes, Totia Meirelles confirmara a notória categoria vocal ao dar voz à “Uma canção desnaturada” (1978) em número arrebatador.

Contudo, nada marca mais na ópera atualizada por Farjalla – com figurinos exuberantes em que predominam o vermelho na paleta de cores vivas – do que o canto de “Geni e o Zepelim” por Valéria Barcellos, atriz trans que dá vida, voz, alma e lágrimas a Geni, a travesti humilhada por todos no jogo de poder da peça.

Simbolizando a resistência da população LGBTQIA+ marginalizada pela sociedade, o canto de “Geni e o Zepelim” por Barcellos, terminando com a atriz aos prantos, é número que vem sendo aplaudido de pé em todas as sessões da “Ópera do malandro” desde a estreia da encenação em São Paulo (SP).

A ovação já é esperada e cada plateia corresponde à expectativa já criada em torno do solo da atriz, ápice de espetáculo repleto de números coletivos calcados na força do elenco, a exemplo da rumba “Las muchachas de Copacabana” (1978).

Brado de uma tribo que cansou de levar cuspe na cara, “Geni e o Zepelim” é o emblema de montagem que se nutre da linguagem e da expressão corporal dos clowns – nítida na pintura dos rostos do elenco e na composição dos personagens, sobretudo do delegado Chaves, o Tigrão representado pelo ator Amaury Lorenzo – e do movimento da catira, dança do folclore nacional em que o ritmo é marcado pela batida sincronizada dos pés e das palmas das mãos.

Enfim, sem medo de profanar no melhor dos sentidos um texto já (con)sagrado do teatro musical brasileiro, Jorge Farjalla revigora a “Ópera do malandro” com a mão forte de um encenador que tem feito diferença na cena nacional.

Fontes

Informação baseada em material público de G1 Pop & Arte, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

Fontes consultadas

  • G1 Pop & Artelink

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