Assisti a "Minha Melhor Amiga" com nove amigos na semana passada. Nove. Ocupamos quase toda a fileira G de uma sala abarrotada de gente, num cinema de shopping no Recife.
Éramos uma pequenina excursão que, depois de um malabarismo danado para conciliar agendas, finalmente aconteceu.
Nossa patota se formou em momentos e lugares diferentes da vida: três deles conheci numa pelada de vôlei, um dentro da sala de aula e os outros cinco pelos corredores do colégio.
Não nos reuníamos todos assim havia muito, muito tempo.
Nas poltronas ao nosso redor, percebi outras "panelinhas" como a nossa: de formações e idades diversas (meus amigos estão na casa dos 25-30 anos, enquanto a maioria dos outros grupos era formados por amigas mulheres que pareciam estar na casa dos 40, 50).
Teriam elas também pelejado para conseguir fazer acontecer aquele encontro.
Filme já é uma das maiores bilheterias do cinema nacional.
Dirigido por Susana Garcia e estrelado por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, o longa brasileiro já alcançou um grande feito: em apenas três semanas em cartaz, entrou para o top 15 dos filmes nacionais de maior público de todos os tempos, segundo o jornal O Globo.
A bilheteria ultrapassa 4 milhões de espectadores.
Nas redes, os “encontrões” de amigos (como o meu) parecem ter virado parte do fenômeno. Pelo menos é o que sugerem os posts que viralizaram desde a estreia do longa, em 3 de setembro.
Um deles, da criadora de conteúdo Ana Louise Gadelha, flagrou seis senhorinhas indo juntas ao cinema em Fortaleza, no Ceará, para assistir ao filme. "Passado com o lacre e a amizade das divas", escreveu a blogueira.
Nos comentários, uma seguidora acrescentou: “Na sessão que eu fui hoje tinham 2 grupos de senhoras, a coisa mais linda”. O vídeo passa de 4,4 milhões de visualizações.
E não é difícil encontrar, espalhadas por aí, outras publicações nessa mesma linha: “Essa é a sensação de ir assistir ‘Minha Melhor Amiga’ com a sua melhor amiga” ou “Este é um sinal para você assistir ‘Minha Melhor Amiga’ com suas amigas”.
Mônica, Ingrid e Susana Garcia estão de olho no movimento.
E não é só impressão de quem está de fora. Ao g1, Mônica Martelli disse que ela e Ingrid Guimarães também têm acompanhado de perto a reação do público.
Minha Melhor Amiga" acompanha Júlia e Clara, duas mulheres na casa dos 50 anos que decidem viajar para a Europa depois de se despedirem das filhas, que vão para um intercâmbio.
O roteiro passa por temas como independência financeira feminina, vida amorosa depois dos 50, menopausa, libido, divórcio, maternidade... em uma sequência de cenas-esquetes inspiradas em causos e sufocos vividos pelas próprias atrizes.
Vale aí a máxima de Ariano Suassuna de que tudo que é ruim de passar é bom de contar.
Estão lá os “perrengues chiques” das viagens feitas por elas para Portugal e Espanha e até uma homenagem a Paulo Gustavo, um dos melhores amigos de Ingrid e Mônica.
A morte do ator, em 2021, aproximou ainda mais as duas.
Em entrevistas, elas já falaram sobre como ter uma à outra naquele momento foi importante para atravessar o luto e também para perceber ainda mais o valor do tempo que tinham juntas.
Sobre isso, atravessar tempos difíceis, a atriz e escritora Maria Ribeiro costuma dizer que os amigos podem ocupar um espaço até maior que o da família. "Às vezes você não tem uma família ótima, e você não é obrigado a conviver com essas pessoas", defendeu em podcasts.
Maria também é amiga de Mônica. As duas apresentaram juntas o “Saia Justa”, do GNT, por quatro anos. Em um dos aniversários de Martelli, Ribeiro chegou a escrever sobre a falta que sentiu de dar um abraço na amiga pessoalmente: “Mas o abraço está aqui, em forma de post, e segue igual, resiste ao tempo, que é um amor pra sempre”.
Esses desencontros, naturais da vida, também estão no filme. Júlia e Clara, as personagens, guardam segredos, dizem coisas que machucam uma à outra e chegam até a se afastar brevemente.
Talvez por isso o roteiro esteja "batendo" tanto nas pessoas, porque retrata uma amizade cheia de falhas, defeitos, desacertos: a única amizade possível. Até mesmo quando não há brigas, somente com a distância que a vida adulta impõe, de mansinho.
Sobre esse afastamento que vai acontecendo quase sem a gente perceber, o colunista Pranav Jain escreveu no The Times of India: na juventude, a amizade prospera por conta do excesso de tempo.
Depois, quando se "vira" adulto, as amizades vão se esfarelando à medida que o “vamos nos ver hoje?” dá lugar ao “desculpa, amiga, a correria tá muito grande”.
É uma perda curiosa porque não exige necessariamente um rompimento. As coisas só vão esfriando, ficando para depois, para nunca mais.
E silenciosa porque, segundo ele, para as desilusões amorosas e os términos românticos, há uma renca de músicas, filmes, poemas e até simpatias que ajudam a dar conta.
Mas quem ensina o que fazer quando você perde um amigo que um dia conheceu a sua vida inteirinha.
Em tempos em que passou a “pegar bem” se gabar de ser ou ter um amigo de “baixa manutenção", não é raro que os vínculos sobrevivam apenas por espiadinhas nos stories: acompanhando de longe uma viagem, o boysinho novo, a mudança de emprego, de cidade.
Jain chamou isso de generosidade irracional. "A amizade sempre dependeu dessa disposição de desperdiçar tempo juntos de forma magnífica e de permanecer disponível, mesmo sem agenda.
Em números
- A bilheteria ultrapassa 4 milhões de espectadores
- O vídeo passa de 4,4 milhões de visualizações
- Minha Melhor Amiga' leva 4 milhões ao cinema e vira desculpa perfeita para 'encontrã
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