Em vez de apenas aprender fórmulas e estruturas, estudantes do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), em Cuiabá, são desafiados a descobrir o que podem criar a partir do conhecimento de Química.
Professora de MT chega à final do Educador Nota 10 com projeto de Química.
É assim que funciona o MIPIPEQ – Democratização da Ciência Química e Protagonismo Estudantil, metodologia desenvolvida pela professora Josane Cunha, finalista da 28ª edição do Prêmio Educador Nota 10, na categoria Inovação e Tecnologia.
O projeto é aplicado nas aulas de Química Orgânica do campus Cuiabá – Bela Vista. A cada semestre, os alunos formam grupos e recebem temas relacionados ao conteúdo estudado, como fármacos, neurotransmissores, frutos do Cerrado, inseticidas naturais e biopolímeros.
A partir deles, precisam pesquisar e desenvolver um produto, protótipo ou solução relacionada a questões como inclusão, saúde, sustentabilidade ou cultura.
Cada proposta é desenvolvida durante cerca de dois a três meses. Nesse período, os estudantes pesquisam, testam ideias, fazem ajustes, produzem um resumo científico e apresentam o trabalho para a turma, enquanto Josane acompanha o processo como orientadora e mediadora.
A 28ª edição do Prêmio Educador Nota 10 teve mais de 3,9 mil inscrições e selecionou 12 finalistas, entre professores, coordenadores pedagógicos e gestores escolares.
Josane é uma das finalistas na categoria Inovação e Tecnologia com o MIPIPEQ.
Os vencedores serão anunciados em 10 de novembro, durante cerimônia na Pinacoteca de São Paulo. Para Josane, a indicação representa o reconhecimento de um trabalho construído ao longo de mais de uma década dentro da escola pública e também dos estudantes que participaram da metodologia.
Projetos que ganharam novos caminhos.
O MIPIPEQ começou a ser desenvolvido em 2013 e passou a ser aplicado de forma sistemática em 2016. A proposta surgiu depois que Josane percebeu que muitos estudantes enxergavam a Química como uma disciplina abstrata, distante da realidade e muito ligada à memorização.
Um dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos foi o Cerrado Atômico, um jogo didático de Química Orgânica pensado para estudantes cegos e pessoas com daltonismo. O projeto foi aprimorado e avaliado com participação do público-alvo no Instituto dos Cegos do Estado de Mato Grosso (ICEMAT) e posteriormente apresentado em feiras científicas, entre elas a FEBRACE.
O estudante Eduardo Rodrigues, de 18 anos, que participou da criação do jogo, explica como surgiu a proposta de desenvolver uma ferramenta de ensino com esse perfil.
Outro trabalho desenvolvido a partir da metodologia foi o Química das Emoções: Funções Orgânicas e Saúde Mental, que relacionou conteúdos da disciplina a uma questão próxima da realidade dos estudantes.
A pesquisa foi posteriormente aprimorada e apresentada em eventos científicos.
A técnica em Química Isadora Carvalho, de 18 anos, que participou do projeto, explica a relação que o grupo buscou estabelecer entre o conteúdo estudado e o tema da pesquisa.
Também foram desenvolvidos bioplásticos a partir da casca da manga, jogos sobre inseticidas naturais e produtos feitos com frutos do Cerrado.
Atualmente, entre 80 e 90 estudantes participam da metodologia a cada semestre. Josane estima que mais de 1,2 mil alunos tenham passado pelo projeto nos últimos dez anos.
Por ano, são desenvolvidos, em média, de 12 a 16 produtos e respectivos trabalhos científicos.
Além da disciplina, os alunos que desejam continuar as pesquisas podem integrar o QuiConecta, grupo voltado ao aperfeiçoamento dos projetos, produtos, protótipos e trabalhos científicos.
A iniciativa já levou estudantes a eventos como o Congresso Brasileiro de Química, a MECTI (Mostra Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação), a FEBRACE (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), realizada na Universidade de São Paulo (USP), e a FEBIC (Feira Brasileira de Iniciação Científica).
Para Josane, a principal mudança aparece na postura dos estudantes, que passam a pesquisar, tomar decisões, testar possibilidades, lidar com erros, trabalhar em equipe e defender suas escolhas.
A metodologia nasceu da vontade de mudar a maneira como os alunos enxergavam a disciplina e mostrar que o conhecimento químico poderia ser usado para compreender problemas e criar soluções.
A especialista em educação científica Elane Soares destaca que a metodologia também modifica a forma como os estudantes lidam com o erro e com o próprio processo de aprendizagem.
Segundo ela, em uma atividade prática pontual, o aluno geralmente parte de uma situação mais fechada, na qual o resultado esperado já é conhecido.
Em um projeto investigativo, por outro lado, é preciso formular hipóteses, testar possibilidades, analisar os resultados e decidir quais caminhos seguir.
Para Elane, essa diferença também aparece na relação dos estudantes com o conhecimento. Em vez de buscar apenas a resposta correta, eles precisam compreender por que determinada tentativa funcionou ou não e usar essa informação para modificar o caminho da pesquisa.
Em números
- A 28ª edição do Prêmio Educador Nota 10 teve mais de 3,9 mil inscrições e selecionou 12 finalistas, entre prof
- Josane estima que mais de 1,2 mil alunos tenham passado pelo projeto nos últimos de
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