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Brasil

O zolpidem não é álibi para o seu sonambulismo

Medicamento pode favorecer despertar incompleto, mas não explica o sentido que ações realizadas durante o episódio podem assumir

11 min de leitura
O zolpidem não é álibi para o seu sonambulismo

São recorrentes os relatos de sonambulismo entre usuários de zolpidem ou outros medicamentos para dormir. Nos fóruns, aparecem apagões, mensagens enviadas durante a noite, episódios de comer dormindo e até situações íntimas das quais não resta lembrança.

A literatura médica mostra, porém, que são casos relativamente raros: estudos que perguntam ativamente aos usuários encontram entre 3% e 5% de relatos de sonambulismo ou comportamentos amnésicos, enquanto levantamentos de pós-comercialização chegam a 0,3% a 1%.

Ainda assim, esses episódios parecem alimentar uma desimplicação subjetiva cada vez mais reforçada na contemporaneidade: “Foi o zolpidem”.

Uma explicação disponível é que o fármaco, ao potencializar os receptores GABA, favoreça um despertar incompleto, no qual vigília, controle motor e consciência deixam de operar de modo integrado.

É também assim que o DSM-5-TR situa o sonambulismo entre os transtornos do despertar do sono não REM, caracterizados pela coexistência parcial de sono e vigília, e recomenda investigar causas específicas, entre elas a medicação, sobretudo quando o quadro surge na vida adulta.

A literatura sobre essas parassonias, contudo, reconhece que sua fisiopatologia permanece mal compreendida. O manual descreve os comportamentos, mas deixa a etiologia em aberto e não responde por que uma pessoa cozinha, outra escreve mensagens e outra procura o corpo de quem ama.

É o mesmo impasse que Freud identificou em 1901, ao examinar os lapsos, esquecimentos e trocas de palavras na Psicopatologia da vida cotidiana. As justificativas psicofisiológicas de seus contemporâneos, como o cansaço, a distração ou a semelhança sonora entre os vocábulos, forneciam condições propícias para o fenômeno, mas não explicavam por que o lapso ocorria daquela maneira específica.

Se o zolpidem fornece as condições fisiológicas do episódio, haveria em nós algo capaz de impor uma forma determinada de agir durante o sono.

Chama a atenção, aliás, que um fenômeno tão restrito entre os usuários do medicamento desperte interesse tão desproporcional. Hoje, há perfis inteiros no TikTok dedicados ao tema: pessoas que instalam câmeras para filmar as próprias noites, publicam os episódios e reúnem grandes audiências.

O que nos fascina tanto nessas cenas? E o que é isso que nelas se manifesta e que, de algum modo, habita todos nós.

Não se encontra na obra de Freud um tratamento sistemático do sonambulismo. Coube a Isidor Sadger (1867-1942), médico vienense do círculo freudiano, preencher a lacuna com o ensaio Über Nachtwandeln und Mondsucht.

Eine medizinisch-literarische Studie (Sobre o sonambulismo e o lunatismo: um estudo médico-literário), publicado em 1914 em uma coleção dirigida pelo próprio Freud.

O sonambulismo como expressão motora de uma mensagem ou cena inconsciente.

O argumento parte da analogia com o sonho. Se o sonho realiza de maneira disfarçada desejos recalcados, e o faz à maneira de um rébus, o sonambulismo faria o mesmo pela via motora.

Um exemplo de sonho talvez esclareça o que está em jogo.

Quando o analista pontua esse significante, é a própria analisante quem se surpreende ao reencontrar, no sonho, aquilo de que julgava não querer mais saber.

A partir dessa mesma estrutura de escrita por imagens, poderíamos pensar que a cena sonâmbula também se construa de maneira cifrada. Há aí, porém, um obstáculo decisivo: o sujeito não se lembra do que fez, e o texto da cena muitas vezes lhe chega pelo relato de terceiros.

Imaginemos alguém que, durante a noite, vai até a geladeira, retira um “ímã” e o leva para a cama. Ao acordar, simplesmente encontra um ímã em sua cama. É possível, porém, que nas associações desse sujeito, ao falar sem censura, apareça uma história infantil em torno de sua “i(r)mã” que caberia ao analista pontuar.

Há também aqui um rébus. É claro que justamente a associação, o texto que circula naquela análise, e não a semelhança sonora da homofonia isolada, que abriria a possibilidade da interpretação.

Não por acaso, o autor sustenta que, nesse texto expresso pelo sonambulismo, deixam-se ler configurações de nossas fantasias, muitas vezes sexuais e infantis. Uma precaução, no entanto, vale para todo o ensaio: o sonambulismo não precisa ser tomado como uma mensagem pronta do inconsciente, à espera de decodificação, posição para a qual o texto de Sadger por vezes parece resvalar.

Ele pode, antes, ser interrogado como uma cena cuja significação só emerge a partir das associações do sujeito. Nessa cena podemos nos perguntar quem aparece, que lugar o sujeito ocupa, o que se repete ali, a quem o ato se endereça.

Um sentido recorrente do sonambulismo pode ser o desejo de subir à cama do objeto amado.

Existe uma série de relatos de sonambulismo em que o sujeito parece confundir o lugar em que deve urinar, dirigindo-se, por exemplo, a uma caixa, a um sapato ou a outro recipiente inadequado.

Há também relatos em que o sonâmbulo se levanta e vai até a cama de outro membro da casa ou da família.

Na clínica, o autor apresenta o caso de um guarda-florestal de 28 anos que, desde a puberdade, em noites de lua cheia, levantava-se e urinava numa caixa de chapéus ou no sapato de um colega.

Antes que o leitor descarte a cena como uma curiosidade de época, o próprio DSM-5-TR inclui urinar em lugares inadequados entre os comportamentos que podem ocorrer durante episódios de sonambulismo.

Sadger, porém, procura um sentido para essa conduta e sustenta que urinar num recipiente poderia representar simbolicamente uma satisfação sexual. Essa interpretação pode hoje soar forçada, mas há em sua intuição algo que merece ser preservado.

O próprio manual reconhece a ocorrência, durante o sono, de comportamentos que podem assumir caráter sexual, ao distinguir a sexônia, ou comportamento sexual relacionado ao sono.

Observa ainda que a atividade sexual durante os episódios é mais provável em adultos.

À psicanálise interessa o que se passa naquela cena e o que ela quer dizer para quem a vive. Aquilo que Sadger reconheceu como sexual na cena não precisa ser reduzido a um simples automatismo do sono, ou a um mero comportamento, como tende a fazer a psiquiatria contemporânea.

A pergunta é o que faz daquele comportamento uma cena para aquele sujeito, a quem ela se dirige e que desejo pode encontrar ali uma forma de realização a ser interpretada.

O sonambulismo pode ser uma espécie de álibi que conserva a inocência do sujeito.

Para Sadger, a atividade que se manifesta inconscientemente durante o sono teria sido, em alguns casos, antes ensaiada conscientemente, quase à maneira de uma ação estudada.

O autor conta o caso de uma mulher que, na infância, fingia dormir na cama dos pais para alcançar a mãe durante o sono, pondo-se de pé entre eles, de olhos fechados, num gesto que Sadger apresenta como precursor declarado de seu sonambulismo posterior.

A vantagem desse arranjo é explicitada por ela própria: nada do que ocorresse no sono lhe podia ser imputado. Daí decorre a explicação psíquica de um dado que parecia puramente somático, o de que a crise sobrevém justamente no sono mais profundo: a meta é poder gozar permanecendo inocente, e a inocência advém da ausência de consciência concomitante.

O dado, aliás, retorna no DSM-5-TR pela via da descrição, pois os episódios ocorrem em geral no primeiro terço da noite, quando o sono é mais profundo; a amnésia, por sua vez, figura entre os próprios critérios diagnósticos.

Mas a que serve, ao sujeito, não estar lá quando age? Podemos arriscar com Sadger: ao seu não querer saber do inconsciente. O zolpidem, hoje tomado como álibi, ocupa esse mesmo lugar, reforça essa mesma posição subjetiva.

O sonambulismo pode expressar uma identificação com a pessoa amada.

Os gestos realizados durante a cena sonâmbula muitas vezes reproduzem ações de pessoas amadas e podem expressar o complexo de identificações inconscientes do sujeito.

Quais identificações inconscientes você carrega? Em um caso relatado, a paciente beija a mãe adormecida, troca a bolsa de gelo e prepara às escuras, sem tropeçar, o desjejum do cunhado, como se assumisse a função materna.

Em seguida, passa a vestir, dormindo, as roupas da mãe e a brincar de mãe com um pedaço de madeira embrulhado como bebê.

A precisão motora com que essas ações são executadas serve de contraprova à leitura do fenômeno como mera desorganização do movimento ou como um rompante comportamental sem sentido nem motivação.

O sonambulismo é um pathos possível para todos nós.

Sadger mostra que o sonambulismo pode associar-se a outros quadros clínicos, com frequência à histeria, mas não constitui, em si, sintoma dela nem de epilepsia.

É antes uma disposição que pode se manifestar inclusive em pessoas psiquicamente saudáveis.

Longe de se restringir aos casos patológicos, o fenômeno encontra hoje confirmação nos dados epidemiológicos. E aqui já não se trata do sonambulismo associado ao zolpidem, mas do fenômeno em geral: o DSM-5-TR estima que entre 10% e 30% das crianças tenham tido ao menos um episódio de sonambulismo e que a história familiar esteja presente em até 80% dos casos.

Outros estudos epidemiológicos apontam na mesma direção, mostrando que o sonambulismo está longe de ser uma excentricidade de poucos doentes. É uma das formas possíveis do sono humano.

Esta é a tese mais curiosa e mais datada. A palavra lunático guarda a memória de uma época em que a influência da Lua sobre os estados mentais era levada a sério, crença que a ciência moderna foi aos poucos deixando para trás.

O próprio termo sonâmbulo, do latim somnus (sono) e ambulare (andar), conserva a ideia de quem caminha durante o sono. Mondsucht ou moon walking, ao lado de sleep walking, remetem a uma época em que o sonambulismo e a influência lunar ainda eram pensados lado a lado.

Impressiona a frequência dos casos associados à lua cheia reunidos no volume, e impressionam ainda mais algumas de suas interpretações. Sadger se torna diretivo e excessivamente simbólico, deixando em segundo plano o contexto e as particularidades de cada analisante.

Talvez esse forçamento interpretativo ajude a explicar por que o livro se perdeu na posteridade dos estudos sobre o fenômeno.

Nem tudo, porém, se perde com ele. Sadger observa que a luz da Lua pode operar como os objetos luminosos utilizados na hipnose, produzindo um efeito hipnoide que favoreceria o sono e a entrega ao hipnotizador.

Caberia, então, perguntar quem é esse hipnotizador que, nesses momentos, está em nós mesmos.

A noite, naquele tempo, ainda não era inteiramente dominada pela iluminação elétrica, e a lua exercia sobre ela um poder de fascínio e captura que hoje mal imaginamos, nós que adormecemos em quartos de blackout total.

O caso da mulher de 23 anos que dormia com as persianas abertas para que a Lua brilhasse sobre ela, e que chegou a redigir uma declaração de amor ao astro, é apresentado como a forma manifesta daquilo que nos demais permaneceria latente.

O astro, pelo visto, não deixa de remeter àquele objeto de amor que nos hipnotiza e diante do qual ficamos, tantas vezes, cegos. A isso se acrescenta o argumento do rapport: nada desperta o sonâmbulo tão prontamente quanto o chamado pelo próprio nome, numa situação que Sadger aproxima tanto da voz materna, capaz de arrancar a criança de seus devaneios, quanto do hipnotizador que anuncia ao sujeito que ele despertará ao ouvir seu nome.

Quando o desejo encontra um destino.

Sadger observa que o quadro costuma instalar-se na puberdade, acompanhando as fantasias da vida erótica do sujeito, e tende a ceder à medida que essa vida encontra novos desdobramentos e destinos.

O DSM-5-TR registra uma curva semelhante de outra perspectiva: mais comum na infância, o sonambulismo remite na adolescência em 50% a 65% dos casos, justamente no período em que a vida erótica começa a procurar seus objetos para além do espaço familiar.

Quis trazer este começo de uma psicanálise do sonambulismo para que não insistamos em recobrir as questões que o inconsciente nos coloca apenas com mais saberes sobre o sono, importantes, é claro, mas insuficientes.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2023.

FREUD, S. Psicopatologia da vida cotidiana (1901). In: Obras completas, volume 5. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

HOQUE, R.; CHESSON, A. L. Zolpidem-induced sleepwalking, sleep related eating disorder, and sleep-driving: fluorine-18-flourodeoxyglucose positron emission tomography analysis, and a literature review of other unexpected clinical effects of zolpidem.

Journal of Clinical Sleep Medicine, v. 5, n. 5, p. 471-476, 2009.

SADGER, I. Über Nachtwandeln und Mondsucht: eine medizinisch-literarische Studie. Schriften zur angewandten Seelenkunde, Heft 16. Leipzig; Wien: Franz Deuticke, 1914.

SADGER, I. Sleep walking and moon walking: a medico-literary study. Tradução de Louise Brink. New York; Washington: Nervous and Mental Disease Publishing Company, 1920.

Fontes

Informação baseada em material público de Metrópoles, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

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