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Brasil

O refúgio do canalha (por Gaudêncio Torquato)

O falso patriotismo alimenta-se da polarização. Precisa dividir a sociedade entre patriotas e traidores, pessoas de bem e agentes do mal

5 min de leitura
O refúgio do canalha (por Gaudêncio Torquato)

O autêntico patriotismo não precisa de trombetas. Manifesta-se no respeito às instituições, na defesa da democracia, no cuidado com o patrimônio público e na disposição de servir à coletividade.

O falso patriota, ao contrário, cobre-se com a bandeira, proclama-se intérprete exclusivo da vontade nacional e apresenta os adversários como inimigos do país. Confunde a pátria com seu partido, seu grupo ou sua própria pessoa.

Samuel Johnson percebeu que a causa nacional poderia funcionar como esconderijo moral. Quando faltam argumentos, sobram símbolos. Quando a biografia provoca dúvidas, exibe-se a bandeira.

Quando os resultados do governo são insuficientes, recorre-se à grandiloquência. O patriotismo de fachada transforma-se, assim, em instrumento de absolvição: quem se apresenta como salvador da pátria espera que seus erros sejam esquecidos em nome de uma missão superior.

Pois bem, a advertência de 1775 cai como uma luva no ambiente político brasileiro. À medida que avança a campanha presidencial, os principais candidatos procuram vestir mantos simbólicos capazes de emocionar e mobilizar o eleitorado.

Cada qual apresenta sua própria versão do país e tenta convencer a população de que somente seu projeto poderá salvá-lo.

Lula recorre à memória de seus governos e proclama ter realizado a melhor administração da história brasileira. Procura ocupar um lugar no panteão dos grandes presidentes, aproximando sua imagem da herança trabalhista de Getúlio Vargas e do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek.

O passado é restaurado, polido e exibido como certificado de competência. As realizações são ampliadas; os fracassos, minimizados; as contradições, empurradas para os bastidores.

O presidente tenta encarnar a imagem de pai dos pobres, defensor da soberania e protetor dos que vivem nos andares inferiores da pirâmide social. Seu patriotismo apoia-se na ideia de inclusão: amar o Brasil seria cuidar dos pobres, aumentar a renda, gerar empregos e defender as riquezas nacionais.

Trata-se de uma narrativa poderosa, porque combina lembrança, gratidão e esperança. Mas o discurso torna-se oportunista quando transforma políticas de Estado em favores pessoais e apresenta o governante como proprietário das conquistas sociais.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, procura ocupar o território da moral, dos bons costumes e da família. Apresenta-se como herdeiro de uma corrente conservadora e guerreiro contra tudo aquilo que descreve como ameaça aos valores nacionais.

Em sua retórica, a pátria aparece associada à religião, à autoridade, à ordem, à segurança e à preservação da família. O candidato tenta converter o sobrenome em patrimônio eleitoral e transformar a lealdade ao pai em compromisso com o Brasil.

Também aí existe uma operação de apropriação simbólica. Ninguém possui o monopólio da família, da fé ou da moralidade. São valores pertencentes à sociedade, não a um partido ou clã político.

Quando utilizados como armas de campanha, deixam de unir e passam a separar. O adversário já não é apenas alguém com ideias diferentes: torna-se inimigo da família, da religião e da pátria.

A política abandona o terreno do debate e invade o espaço da condenação moral.

De um lado, portanto, o patriotismo social de Lula; de outro, o patriotismo moral de Flávio Bolsonaro. Um promete proteger os pobres; o outro, defender as famílias.

Um convoca a memória dos programas sociais; o outro mobiliza a tradição conservadora. Ambos procuram pescar votos nos mares da emoção coletiva. As iscas mudam, mas a técnica é semelhante: envolver interesses eleitorais em causas que ninguém ousaria rejeitar.

O problema não está nas causas, todas legítimas. Combater a pobreza é dever do Estado. Defender a família, em suas diversas configurações, também constitui compromisso social.

Preservar a soberania, assegurar a ordem pública e promover o desenvolvimento são responsabilidades de qualquer governo. A deformação começa quando essas bandeiras são sequestradas por candidatos que se apresentam como seus únicos representantes.

O falso patriotismo alimenta-se da polarização. Precisa dividir a sociedade entre patriotas e traidores, pessoas de bem e agentes do mal, defensores do povo e inimigos dos pobres.

Essa linguagem simplifica a realidade, elimina as nuances e dispensa a prestação de contas. Se o líder representa a pátria, criticá-lo passa a ser interpretado como agressão ao próprio país.

Se encarna o povo, investigar seus atos torna-se perseguição. Está formado o refúgio descrito por Samuel Johnson.

A campanha de 2026 começa a ser marcada por esse duelo de símbolos. De um lado, a promessa de reconstrução social; de outro, a cruzada pela restauração moral. O debate sobre educação, saúde, segurança, produtividade, equilíbrio fiscal, desigualdade e eficiência administrativa corre o risco de desaparecer sob o peso dos slogans.

A pátria converte-se em cenário, a bandeira em adereço e o eleitor em plateia de uma representação cuidadosamente ensaiada.

O verdadeiro patriota não pede imunidade. Aceita a fiscalização, respeita a divergência e submete seus atos ao julgamento público. Não trata os recursos do Estado como propriedade pessoal, não transforma programas sociais em moeda de gratidão e não utiliza a religião ou a família como escudos eleitorais.

Seu amor ao país mede-se menos pelas palavras que pronuncia do que pelas responsabilidades que assume.

Depois de 251 anos, a sentença de Samuel Johnson conserva sua força porque identifica uma tentação permanente do poder: transformar valores coletivos em esconderijos particulares.

Cabe ao eleitor abrir as portas desses refúgios, examinar quem está atrás das bandeiras e separar o compromisso verdadeiro da encenação. A pátria pertence a todos.

Quando um político tenta tomá-la para si, é prudente verificar o que pretende esconder sob seu manto.

GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político.

Fontes

Informação baseada em material público de Metrópoles, reescrito pela redação ULTRA NOTÍCIAS.

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