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Brasil

O estado midiático (por Gaudêncio Torquato)

A espetacularização da política brasileira

3 min de leitura
O estado midiático (por Gaudêncio Torquato)

O vedetismo é característico do atual ciclo de declínio dos meca­nismos clássicos da política – partidos, parlamentos, ideologias. Tem mais impacto em sociedades menos desenvolvidas, como a nossa, do que em democracias consolidadas, onde a mídia ainda costuma refle­tir, ao lado da competição entre quadros, diferenças de visões doutri­nárias.

Aqui, a política se transforma, a olhos vistos, em monumental espetáculo, em que atores fazem absoluta questão de ocupar o espaço institucional com a imagem de seus perfis.

Nos Estados Unidos ou em Países europeus, são perceptíveis as diferenças de posições entre repu­blicanos e democratas ou entre liberais e conservadores, esquerdistas e direitistas, trabalhistas e socialdemocratas.

No Brasil, a festejada Constituição-cidadã, de 1988, foi um marco nessa direção. Detalhista ao extremo, corporativista em sua extensão, foi concebida como abrigo de tendências e expectativas de grupos.

Mais que sinal de um novo horizonte democrático, traduziu um arrazoado de intenções para tornar mais fortes determinadas representações so­ciais. A trombeta da mídia, por seu lado, foi fundamental para dar eco aos discursos e abrir espaços.

Neste momento, instala-se nos desvãos institucionais o espelho de Narciso. As caras de indivíduos e institui­ções ingressam na arena, disputando os melhores palanques.

As casas congressuais e os partidos começam a perder o monopólio da ação po­lítica. Os poderes do Estado, agora energizados por esferas participati­vas e núcleos descentralizados e difusos de poder, passam a ser foco dos holofotes da mídia.

Na esteira do desaparecimento de grandes ícones do Parlamento (Tancredo, Ulysses, entre outros), o cenário das grandes lideran­ças é ocupado por políticos homogêneos, que passam a preocupar-se exageradamente com o perfil pessoal.

A lapidação de imagem inspira-se no lema: captar o máximo interesse e fixar a atenção do público.

Desenvolve-se capilarmente um Estado midiático, assentado so­bre uma imensa estrutura de comunicação. A personalização do po­der é o leitmotiv da nova ordem. De dois em dois anos, novos e velhos atores sobem aos palcos para desfilar qualidades pessoais num espe­táculo regrado pelo uso e abuso de miragens, promessas, esperanças e sonhos, todos voltados para cooptar a adesão de grupos descrentes.

Nos interstícios, governantes do Executivo se esmeram num exercí­cio de maquiagem para limpar protuberâncias no perfil, enquanto os níveis de representação popular, para não serem esquecidos, buscam as luzes da imprensa.

Inversões de valores se multiplicam. A mídia cria pautas, determinando ações e comportamentos políticos. Quem não quer fazer parte do jogo não tem chances de aparecer.

O vede­tismo se impõe. O acessório ocupa o lugar do principal. Uma fei­ra de personalidades, disputando visibilidade, canibaliza os escopos partidários. Verba e verbo estabelecem relação promíscua.

Assim, a autoglorificação de perfis contribui para fazer florescer a semente de uma democracia pervertida, em que o Estado e suas representações passam a fazer da política nada mais que um exercício de fuga diante da realidade.

Ao político há de se cobrar aquilo que o filósofo dinamarquês So­ren Kierkegaard costumava cobrar dos cidadãos: ser uma exceção.

GAUDÊNCIO TORQUATO é professor emérito da USP, jornalista, escritor e consultor político.

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