Tem quem conte os minutos para chegar em casa depois de um dia de trabalho ou quem ainda esteja a caminho do rolê. Durante a madrugada de sábado para domingo, os vagões do metrô de São Paulo reúnem passageiros com motivos bem diferentes para estar ali.
Quem usa o Metrô de SP de madrugada? g1 passa a noite no transporte.
Mas chegar ao destino final nem sempre é simples.
Desde dezembro de 2025, 4 das 15 linhas de metrô e trem da capital funcionam de forma ininterrupta de sábado para domingo. A operação é experimental e válida para as linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 15-Prata, operadas pela Companhia do Metropolitano de São Paulo, o Metrô.
Já as linhas sob responsabilidade da iniciativa privada não circulam durante a madrugada.
🔎 Em 25 de setembro, o Metrô inclusive anunciou a extensão do período teste desta operação até o dia 31 de janeiro de 2027.
Segundo o Metrô, entre 6 de dezembro e 4 de outubro, as quatro linhas registraram 696 mil embarques — uma média de 15,8 mil passageiros por noite.
Mas quem aproveita os trilhos enquanto a cidade dorme.
Uma pesquisa do Metrô mostra que a maioria é formada por homens (66%), jovens de 18 a 34 anos e com ensino médio completo. O lazer foi a principal razão dos deslocamentos, com 72%, seguido do trabalho (27%).
Para observar quem usa o serviço e como o movimento muda ao longo da noite, o g1 acompanhou a operação na madrugada de sábado para domingo, de 22 para 23 de agosto.
A viagem começou à meia-noite na estação Palmeiras-Barra Funda, na Linha 3-Vermelha. E não foi uma escolha aleatória. Desde o início da operação noturna, o terminal acumula cerca de 88 mil embarques, liderando o movimento entre todas as estações atendidas pelo projeto.
Localizada na Zona Oeste, a Barra Funda concentra opções de vida noturna, como bares nas ruas Sousa Lima e do Samba e locais de shows como Nubank Parque (estádio do Palmeiras), Espaço Unimed, Audio e Villa Country.
O movimento da região também aparece no fluxo de passageiros da estação.
No sábado, os totens de autoatendimento para compra de passagens avulsas estavam com filas longas de pessoas que tinham acabado de sair do festival Histórias com Daniel e Chitãozinho & Xororó, realizado no Nubank Parque, e do show do Roberto Carlos, no Espaço Unimed.
Assim que o relógio marcou meia-noite, a equipe do g1 percebeu que os passageiros aceleravam o passo para passar a catraca e pegar o metrô. Apesar da operação de madrugada existir há dez meses, muitos usuários ainda desconhecem esse novo horário de funcionamento — como é o caso de Edmilson Silva que tinha como destino a estação Tucuruvi, fim da linha 1-Azul, na Zona Norte.
Eu estava em um rolê de pagode, a Casa do Salgado, que tem uma vez por mês. E aí vim para cá agora [estação Palmeiras-Barra Funda]. Eu não sabia que o metrô era a noite toda.
Acabei de chegar aqui e fiquei sabendo. Foi uma surpresa boa", contou o jovem logo após passar a catraca.
Por volta da 0h30, o vagão que partia da estação Palmeiras-Barra Funda em direção a Corinthians-Itaquera — no extremo Leste da cidade — estava cheio, com todos os assentos ocupados e vários passageiros em pé se equilibrando nas barras.
A estudante de jornalismo Brenda Teixeira estava a caminho de mais um rolê. Depois de sair de uma festa de aniversário, ela embarcou no metrô com amigos rumo à República, no Centro, onde pretendia continuar a noite.
Acho que São Paulo está precisando dessa demanda de lazer, além do trabalho todos os dias, que é pesado. Então, com o metrô funcionando 24 horas, a gente tem mais tempo e mais possibilidade de aproveitar, de distrair a cabeça com outras coisas", afirmou a estudante ao g1 dentro do vagão.
Para Brenda, a operação durante a madrugada estimula a população a sair mais de casa e aproveitar a vida boêmia paulistana. "Alguns amigos ficaram [na festa de aniversário] porque as linhas privatizadas não funcionam 24 horas.
Então eles tiveram que ir embora. A gente que passa por essas linhas públicas consegue estender um pouco mais a diversão", explicou.
O transporte sobre os trilhos noturno também é uma opção para os trabalhadores que estão voltando para casa ou dando início à jornada. Segundo o metrô, eles representam quase 30% do perfil dos passageiros.
É o caso da bombeira civil Edcleide Gomes dos Santos Sampaio que estava voltando do trabalho. Ela havia trabalhado no show de Roberto Carlos, no Espaço Unimed, e pegou a Linha 3-Vermelha e, na estação Sé, fez a baldeação para a Linha 1-Azul, pela qual seguiria até Armênia, na Zona Norte.
Edcleide usa o metrô de madrugada desde o início da operação experimental. Antes, precisava pagar corridas por aplicativo ou recusar trabalhos que terminassem tarde.
Na primeira hora da madrugada, o g1 viu muitos grupos de jovens — às vezes com copos e bebidas nas mãos — transitando pela Linha 3-Vermelha, que concentra metade dos embarques de madrugada.
No ranking das dez estações com maior movimento, seis estão nesta linha: Barra Funda, República, Anhangabaú, Tatuapé, Itaquera e Marechal Deodoro.
Com o avanço da noite, o fluxo de passageiros foi diminuindo e o intervalo entre os trens, aumentando gradualmente. Na estação Sé, que conecta as linhas 1-Azul e 3-Vermelha, o tempo médio de espera chegou a mais de 20 minutos.
O comércio nas estações — com lojas que oferecem desde comida a roupas — também foi afetado pelo novo fluxo de passageiros de madrugada. Na Barra Funda, o g1 encontrou três estabelecimentos abertos: dois que vendiam salgados e café e um de doces.
Os funcionários não quiseram se identificar, mas contaram que antigamente fechavam as portas à meia-noite e agora ficam abertos até as 2h do domingo.
Sentados no chão da estação, ao menos 10 pessoas, uma delas carregando um bebê de colo, precisavam esperar pela abertura da conexão com as linhas de trem 7-Rubi, 8-Diamante, 10-Turquesa e 11-Coral, que ligam capital a cidades da região metropolitana.
Uma delas era a auxiliar de escrita fiscal Greice Alves, que havia trabalhado no festival sertanejo no Nubank Parque. Moradora de Suzano, ela precisava pegar a linha 11-Coral, porém, não havia chegado a tempo e teve que esperar até às 4h40.
Tive que ficar aqui esperando, não tinha o que fazer", desabafou.
Depois das 2h, os assentos dos vagões foram esvaziando, sendo possível notar uma mudança no perfil dos usuários. Cansados, passageiros encostavam a cabeça nas janelas para tirar um cochilo — quando não usavam cachecol ou casaco para cobrir o rosto e os olhos da luz forte do metrô.
Alguns entregadores de aplicativo também encostavam a bicicleta e a bag no chão e aproveitavam para descansar durante o trajeto de volta para casa.
Nesse horário, poucos funcionários do Metrô foram vistos pelas estações. No Anhangabaú, por volta das 3h, o g1 viu uma faxineira limpando o chão da plataforma. Já no Tatuapé, não havia ninguém — parecia uma plataforma fantasma.
Por volta das 4h, há uma nova mudança de perfil: os baladeiros voltaram a ser maioria entre os passageiros. Localizada na Avenida Paulista, a estação Consolação, da Linha 2-Verde, estava lotada de grupos de jovens voltando de bares e baladas da Augusta ou de ruas adjacentes.
Muitos estavam sentados nas cadeiras espalhadas na plataforma ou no chão esperando a abertura da conexão com a Linha 4-Amarela, administrada pela Motiva, que abre somente às 4h40.
Segundo o atendente Matias Porto, que havia acabado de sair de uma balada com os amigos, a estação se transformou em um refúgio para os usuários que aguardam a abertura da linha.
É muito melhor do que ficar correndo risco na rua.
Matias ainda defendeu que o serviço da madrugada seja estendido a todas as linhas, inclusive às operadas pela iniciativa privada.
Em números
- Segundo o Metrô, entre 6 de dezembro e 4 de outubro, as quatro linhas registraram 696 mil embarques — uma média de 15,8 mil passageiros por
- Desde o início da operação noturna, o terminal acumula cerca de 88 mil embarques, liderando o movimento entre todas as e
- Sentados no chão da estação, ao menos 10 pessoas, uma delas carregando um bebê de colo, precisavam
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