Uma linhagem de vírus descoberta em pomares paulistas desponta como uma promissora aliada contra o cancro cítrico, sendo capaz de reduzir em até 60% as lesões nas plantas durante testes em estufa.
A infecção bacteriana é responsável por grandes prejuízos nas culturas de laranja, limão e tangerina ao causar manchas marrons em folhas e frutos, o que compromete severamente a qualidade e a produtividade das safras.
O achado, que traz uma nova perspectiva para o manejo agrícola, foi detalhado em um estudo publicado em setembro na revista Microbial Genomics. Conduzida por uma parceria entre a Universidade Estadual Paulista (Unesp), o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) e a Universidade Metropolitana de Manchester (Reino Unido).
A pesquisa mostrou que o bacteriófago P27 (um tipo de vírus que infecta bactérias) é capaz de eliminar a Xanthomonas citri, causadora da doença, sem afetar outros organismos do ambiente, o que pode contribuir para reduzir a dependência de defensivos à base de cobre.
Para chegar a essa conclusão, os cientistas realizaram uma ampla varredura em 12 propriedades rurais paulistas entre 2018 e 2021 e isolaram 72 variedades desse vírus.
Os bacteriófagos foram avaliados quanto à capacidade de infectar diferentes linhagens de Xanthomonas citri, além de características como crescimento, estabilidade e composição genética.
Também foram estudadas proteínas com potencial para degradar estruturas bacterianas. O fago P27 foi selecionado e testado como estratégia de controle da bactéria em plantas de laranja.
Os testes mostraram que as árvores tratadas com o vírus tiveram até 60% menos lesões de cancro cítrico do que as plantas não tratadas.
Ele destaca que o achado abre caminho para o desenvolvimento de biopesticidas mais sustentáveis, capazes de proteger os pomares e minimizar os impactos sobre o solo e outros organismos.
Nos experimentos, foram testadas 122 linhagens de Xanthomonas citri, das quais cem se mostraram suscetíveis à infecção por todos os fagos. De acordo com o autor, isso pode estar relacionado às características genéticas desses microrganismos.
Apesar disso, 21 linhagens foram completamente resistentes ao tratamento, enquanto uma apresentou resistência variável, ou seja, foi resistente a alguns fagos, mas sensível aos demais.
Ainda que a aplicação do fago P27 como estratégia de controle do cancro cítrico seja promissora, seu uso em campo ainda depende da superação de alguns desafios.
Segundo o pesquisador, a equipe já trabalha em estratégias para contornar o problema. “Os próximos passos incluem o desenvolvimento de formulações protetoras, capazes de blindar os fagos na folha, e o uso de substâncias naturais para dificultar o desenvolvimento de resistência bacteriana”, afirma.
No futuro, a expectativa é combinar a aplicação dos fagos com concentrações menores de cobre, reduzindo a dependência do produto.
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