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Agronegócio

Terras raras, tarifas, agro e IA: o que Trump e Xi negociam e os impactos para o Brasil

Líderes das duas maiores economias do mundo se reúnem nesta quinta-feira (24), em Washington; comércio, minerais críticos, tecnologia e compras agrícolas estão

6 min de leitura
Terras raras, tarifas, agro e IA: o que Trump e Xi negociam e os impactos para o Brasil

Presidente chinês é recebido por Trump nos EUA antes de reunião oficial nesta quinta.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, se reúnem nesta quinta-feira (24), na Casa Branca, em Washington, para discutir os próximos passos da relação entre as duas maiores economias do mundo.

Qualquer mudança na relação entre Washington e Pequim pode reverberar no comércio global, afetando preços, cadeias de produção e empresas de diferentes países (Entenda porque o encontro acontece agora).

A relação comercial entre Estados Unidos e China passou por uma forte escalada nos últimos anos, com os dois países aumentando tarifas e adotando medidas de retaliação.

Em 2025, as tarifas chegaram a níveis superiores a 100% em alguns produtos, antes que negociações levassem a uma trégua para reduzir a tensão e dar espaço a novos acordos.

A trégua, que tinha prazo até novembro, foi prorrogada agora até 10 de janeiro de 2027. A extensão evita, por enquanto, uma nova escalada tarifária, mas não encerra as disputas entre Washington e Pequim.

Agora, Washington e Pequim ainda precisam avançar em temas como o fornecimento de terras raras, as compras chinesas de produtos agrícolas americanos, a redução de tarifas sobre determinados produtos e as restrições ao comércio de tecnologia.

Para o Brasil, dois setores concentram parte importante dos possíveis efeitos: o agronegócio, principalmente a soja, e a mineração, diante da busca internacional por fornecedores de terras raras fora da China.

Tarifas: uma trégua para ganhar tempo.

A guerra comercial entre Estados Unidos e China levou as tarifas dos dois lados para a casa dos três dígitos, antes das reduções negociadas posteriormente.

🚢 A negociação também envolve as taxas portuárias impostas pelos dois países a navios ligados ao outro.

Os EUA criaram cobranças para embarcações chinesas ou construídas na China que atracam em portos americanos, como parte de uma política para pressionar o setor naval chinês.

Pequim respondeu com taxas sobre navios ligados aos EUA. As medidas foram suspensas por um ano no acordo comercial de 2025 e estão entre os pontos que precisam ser resolvidos nas novas negociações.

💰 Para outros países, inclusive o Brasil, mudanças nas rotas de comércio entre as duas maiores economias podem alterar a concorrência por mercados e fornecedores.

Isso é especialmente relevante para produtos agrícolas e minerais.

As terras raras são um grupo de minerais usados em produtos como motores elétricos, eletrônicos, equipamentos de defesa, turbinas e componentes de alta tecnologia.

A China domina boa parte dessa cadeia e tem usado controles de exportação como instrumento de pressão nas negociações com os Estados Unidos. O país responde por cerca de 70% da mineração mundial de terras raras, 85% do refino e 90% da produção de ligas e ímãs.

O problema para os americanos não está apenas em encontrar minério. A concentração chinesa também ocorre nas etapas de processamento e fabricação de produtos derivados, o que torna mais difícil substituir rapidamente os fornecedores.

Por isso, Washington busca garantir um fluxo mais previsível de minerais críticos enquanto tenta desenvolver alternativas à cadeia chinesa.

É nesse ponto que o Brasil entra na equação.

O país possui grandes recursos de terras raras, mas ainda tem uma participação pequena na produção e, principalmente, no processamento desses minerais. A tentativa de Estados Unidos e outros países de diversificar fornecedores pode aumentar o interesse por projetos brasileiros e abrir espaço para investimentos no setor.

Nesse cenário, o Brasil também vem ampliando as conversas com outros parceiros para desenvolver o setor de terras raras, segundo o professor de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel.

Agro: a soja está no centro da disputa.

A agricultura é outro ponto em que a negociação interessa diretamente ao Brasil.

A China é o maior comprador mundial de soja e compra grandes volumes tanto dos Estados Unidos quanto do Brasil. Durante a guerra comercial, tarifas chinesas reduziram a competitividade da soja americana e favoreceram os embarques brasileiros.

Agora, Pequim voltou a ampliar as compras dos Estados Unidos.

As compras de soja americana já começaram a aumentar. Até 10 de setembro, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) havia confirmado a venda de quase 10 milhões de toneladas da safra atual para a China.

O movimento não significa que a China deixará de comprar soja brasileira. O mercado chinês é grande o suficiente para absorver volumes dos dois países, e fatores como preço, frete, disponibilidade e período de colheita influenciam a escolha do fornecedor.

Mas uma presença maior da soja americana aumenta a concorrência pelo mercado chinês e pode influenciar a formação dos preços internacionais, inclusive das cotações negociadas em Chicago.

Para o produtor brasileiro, portanto, uma eventual ampliação dos compromissos entre Washington e Pequim pode mudar as condições de disputa por um dos principais mercados do agronegócio nacional.

IA e chips: a disputa pela tecnologia.

A tecnologia também está no centro da relação econômica entre os dois países.

Os Estados Unidos tentam limitar o acesso chinês a chips avançados e a tecnologias consideradas estratégicas para o desenvolvimento de inteligência artificial. Pequim, por sua vez, busca reduzir essas restrições e ampliar sua capacidade de desenvolver tecnologia própria.

Ao mesmo tempo, as restrições americanas sobre tecnologias avançadas continuam sendo um dos principais pontos de atrito.

A disputa interessa ao restante do mundo porque chips, equipamentos de computação e sistemas de inteligência artificial estão espalhados por cadeias globais de produção.

Mudanças nas regras de exportação podem afetar fabricantes, investimentos e fornecedores de tecnologia em outros países.

A agenda econômica também inclui acordos empresariais.

A China se comprometeu a avançar na compra de 200 aeronaves comerciais da Boeing produzidas nos Estados Unidos. Parte desse compromisso começou a avançar, mas a execução do acordo ainda é acompanhada pelos dois governos.

Também estão em discussão serviços financeiros, investimentos e mecanismos para facilitar a relação comercial entre empresas dos dois países.

São temas que mostram que a negociação vai além das tarifas. O objetivo é estabelecer regras para diferentes áreas da relação econômica enquanto os dois países tentam evitar uma nova escalada comercial.

A reunião ocorre durante a visita de Estado de Xi aos Estados Unidos, sua primeira ao país desde 2015. O líder chinês também está nos EUA no contexto da agenda da Assembleia Geral da ONU.

Para Roberto Uebel, o momento da visita está mais relacionado à presença de Xi nos Estados Unidos por causa da agenda internacional do que a um cálculo específico ligado às eleições americanas, previstas para daqui a cerca de um mês e meio.

Na avaliação do professor, o encontro também faz parte de uma tentativa de Trump de retomar uma estratégia de “minilateralismo”, baseada na construção de acordos e arranjos bilaterais entre países, em contraste com negociações mais amplas em organismos multilaterais (Voltar para cima).

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