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Agronegócio

O aperto de mãos de Trump e Xi não muda a conta da soja

Com 75% de apoio à proibição, o presidente mira um tema popular, mas terá de explicar o destino dos apostadores e a conta da decisão

4 min de leitura
O aperto de mãos de Trump e Xi não muda a conta da soja

O encontro de ontem entre Donald Trump e Xi Jinping terminou com uma trégua comercial prorrogada por dois meses e muita expectativa em torno da soja. Um novo pacote de compras agrícolas, porém, não foi anunciado.

Entendo a preocupação do produtor brasileiro. Se a China voltar a comprar mais soja dos Estados Unidos, perderemos mercado? O preço vai cair.

Eu começaria por uma conta simples. Um navio que sai dos Estados Unidos para a China, em vez de sair do Brasil, não aumenta a produção mundial de soja. Tampouco diminui o consumo chinês.

Isso não significa que as cotações ficarão estáveis. Significa que não há motivo para tratar uma troca de origem como se fosse, por si só, uma mudança na oferta e na demanda globais.

Chicago reflete as expectativas sobre a oferta e a demanda mundiais. No Brasil, o preço recebido pelo produtor passa também pelo câmbio e pelo prêmio pago pela soja em cada porto.

Se os compradores chineses encontrarem mais soja americana disponível, podem negociar com mais força a soja brasileira. O prêmio no nosso porto pode recuar, mesmo que a produção e o consumo mundiais não mudem naquele momento.

Ao mesmo tempo, compras adicionais nos Estados Unidos podem sustentar os contratos negociados em Chicago.

Um movimento pode compensar, ampliar ou reduzir o outro quando a conta chega em reais ao produtor.

Por isso, eu não diria que o encontro é irrelevante para os preços. Diria algo mais preciso: a reunião, sozinha, não determina o preço da soja brasileira.

Para saber o efeito real, precisamos ver os negócios fechados daqui para a frente, os prêmios nos portos e o dólar.

Há um compromisso chinês anterior de comprar soja americana. Ontem não surgiu um volume novo capaz de redesenhar, de imediato, o comércio mundial.

O mercado, que esperava mais detalhes, voltou a olhar para as vendas efetivas e para a safra que entra nos Estados Unidos.

A soja é importante, mas a conversa entre Trump e Xi vai muito além dela. China e Estados Unidos disputam influência econômica, tecnológica, política e militar.

Os americanos querem preservar sua liderança.

Os chineses trabalham com um projeto de longo prazo para ampliar a sua.

Trump provocou uma grande mudança nas relações comerciais internacionais com tarifas e negociações conduzidas diretamente entre governos. Seu mandato vai até janeiro de 2029.

Xi olha para um horizonte mais longo. Pode fazer concessões comerciais agora, ganhar tempo em uma negociação e preservar opções para depois.

Por isso, não imagino Pequim colocando sua segurança alimentar nas mãos de um único país, sobretudo de um concorrente estratégico. A China pode comprar soja americana por preço, necessidade ou interesse diplomático.

Vai continuar, porém, buscando alternativas. O Brasil tem escala para ser uma delas e permanece um fornecedor estratégico.

A carne bovina ajuda a enxergar esse limite. Os Estados Unidos recuperaram acesso ao mercado chinês para frigoríficos, mas enfrentam oferta doméstica apertada e também precisam importar carne.

Podem vender cortes à China; daí substituir o papel do Brasil no abastecimento chinês existe uma distância grande.

São mercados e produtos diferentes, mas a lição sobre a necessidade chinesa de diversificar fornecedores é parecida.

O encontro teve valor diplomático. Os dois líderes mantiveram a conversa aberta e adiaram decisões difíceis. Isso não resolve a disputa entre as duas potências, assim como não retira do Brasil sua capacidade de vender soja à China.

Para o produtor, a pergunta agora é menos vistosa que a fotografia dos presidentes: quanto a China comprará de cada origem e a que preço.

É nos contratos, em Chicago, no dólar e nos prêmios dos nossos portos que aparecerá a resposta. O aperto de mãos de ontem não mudou a relação mundial da soja. A disputa pela margem de quem vende continua.

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