A eleição vai passar. As contas do produtor rural, não. Quem vencer encontrará um Brasil com inflação resistente, crescimento perdendo força e pouco espaço para oferecer crédito barato a quem precisa produzir.
Do próximo governo, será preciso cobrar decisões sobre gastos públicos, dívida e condições para a queda dos juros. Mas, enquanto Brasília define o que fazer, o produtor já está comprometendo dinheiro com uma safra cuja receita só chegará meses depois.
É esse intervalo que me preocupa. Estamos assumindo compromissos hoje para receber num mundo que pode ser mais difícil amanhã.
O Focus de 19 de outubro mostra o tamanho do desconforto. O mercado projeta inflação de 5,22% em 2026, acima da meta de 3% e do limite de tolerância de 4,5%. A previsão de crescimento caiu para 1,83% neste ano e 1,32% em 2027.
A economia ainda cresce, mas as expectativas estão piorando. E a inflação continua dificultando a redução dos juros.
Essa combinação traz o risco de estagflação: economia estagnada com inflação persistente. Não acredito que esse seja o caminho mais provável para o Brasil. Mas seria imprudente ignorar uma trajetória que reúne crescimento mais fraco e preços resistentes.
Sem uma resposta fiscal convincente, o próximo governo terá dificuldade para mudar essa direção. O custo aparece no financiamento, na renegociação e na parcela que vence antes de a produção ser vendida.
A eleição americana pode aumentar a incerteza.
Nos Estados Unidos, a eleição de meio de mandato pode tirar dos republicanos o controle da Câmara. O Senado também está em disputa. Uma derrota imporia obstáculos a Donald Trump nos dois anos finais de seu governo.
Minha preocupação é como ele reagiria. Com mais dificuldade para aprovar sua agenda no Congresso, poderá recorrer com maior intensidade às prerrogativas do Executivo, inclusive em questões comerciais.
Isso é uma possibilidade, sujeita às escolhas do presidente e aos limites institucionais. Mas novas tarifas e retaliações poderiam alterar os mercados dos quais o agro brasileiro depende.
Para o produtor que está plantando, uma mudança nas regras do comércio pode atingir a receita de uma safra cujo custo já foi contratado.
A guerra chega pelo diesel e pelo adubo.
A inflação americana acumulou 3,7% em 12 meses até setembro. A gasolina subiu 9,1% somente naquele mês. A American Farm Bureau, entidade de produtores dos Estados Unidos, vem alertando para a pressão dos combustíveis e fertilizantes sobre as propriedades.
As dificuldades envolvendo o Irã e a continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia mantêm riscos sobre energia, insumos e transporte. Um agravamento pode encarecer a produção mesmo que a economia mundial perca força.
Para o agro, essa combinação é particularmente difícil. O comprador fica mais cauteloso e o produtor continua pagando caro para colocar a mercadoria no mercado.
Se a inflação persistir nos Estados Unidos, o alívio dos juros por lá poderá demorar. Isso também pode dificultar a queda dos juros brasileiros, embora nossas condições fiscais e a inflação doméstica continuem decisivas.
O problema está na possibilidade de essas pressões se encontrarem. Crédito caro, custo elevado e demanda mais fraca podem comprometer a rentabilidade mesmo de quem consegue produzir bem.
É comum esperar que um ambiente externo mais conturbado fortaleça o dólar e melhore a receita de quem exporta. Mas o câmbio não obedece a uma única variável.
Juros, entrada de capital e confiança nas políticas econômicas podem sustentar o real mesmo com o aumento das incertezas. Não há garantia de que o dólar subirá quando o produtor precisar vender.
E, quando sobe, também encarece insumos importados e dívidas em moeda estrangeira. O efeito depende da situação de cada propriedade.
Esperar que o câmbio resolva uma margem apertada pode levar o produtor a adiar uma decisão necessária.
O clima pode reduzir a receita sem reduzir a dívida.
O El Niño acrescenta uma preocupação concreta. O fenômeno está confirmado, e o boletim de outubro do INPE aponta alta probabilidade de intensidade muito forte no último trimestre do ano.
A tendência é de mais chuva no Sul e condições mais secas e quentes no centro-norte. Os efeitos variam por região, cultura e fase da lavoura. No Centro-Oeste, é preciso acompanhar as previsões locais, sem tratar uma área tão extensa como se tivesse um único comportamento.
Excesso de chuva pode atrasar operações e prejudicar a qualidade. Falta de água e calor podem reduzir a produtividade. Em ambos os casos, a receita fica ameaçada.
A dívida, porém, foi contratada antes de se conhecer o resultado da colheita. Se houver quebra, o produtor terá menos produto para pagar compromissos que continuam vencendo.
É nessa hora que um risco climático se transforma também em problema financeiro.
Não vejo motivo para decretar uma crise inevitável. Vejo motivos suficientes para preparar a propriedade para um período mais exigente, em que haverá menos espaço para corrigir decisões tomadas com excesso de confiança.
Antes de ampliar a área, comprar uma máquina ou assumir outro financiamento, é preciso testar a conta com produtividade menor, preço de venda mais baixo e juros altos por mais tempo.
Se o investimento só se paga quando tudo dá certo, a margem de segurança é pequena.
Também é necessário conhecer o custo completo, incluindo juros, e avaliar vendas em etapas que atendam aos compromissos e preservem a margem. Buscar a maior cotação pode custar caro quando a espera obriga a contratar mais crédito.
A venda antecipada exige cuidado com o volume comprometido, sobretudo diante do risco climático. Seguro, proteção cambial quando houver exposição e renegociação antes do atraso precisam ser avaliados conforme a realidade da propriedade.
O Brasil terá de enfrentar seus desequilíbrios, qualquer que seja o vencedor da eleição. E o produtor terá de cobrar isso sem fazer seu planejamento depender de uma solução rápida.
A combinação de conflitos, juros e clima pode criar um período de dificuldades de dimensão histórica para o agronegócio brasileiro. Essa possibilidade exige preparo, sem transformar preocupação em paralisia.
O produtor não controla essas ameaças. Mas precisa decidir quanto delas seu caixa consegue suportar. Adiar essa decisão pode deixá-la nas mãos do credor.
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