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Agronegócio

Casal de jornalistas deixa carreira para investir em café e construir vida no campo com a família

Bruna e Tadeu trocaram as redações pelo café, enfrentaram dívidas, pandemia e crises no casamento e hoje comandam cafeteria, torrefação e produção rural em Fran

10 min de leitura
Agronegócio — imagem padrão

Antes de dividirem uma lavoura de café, uma cafeteria, três filhos e planos para o futuro, Bruna Fernandes Malta e José Tadeu de Oliveira Filho dividiam as salas da Faculdade de Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru (SP).

Os dois se conheceram em 2002, quando cursavam Jornalismo. Depois da faculdade, seguiram juntos, mas profissionalmente tomaram caminhos diferentes. Tadeu conseguiu emprego em uma editora de revistas.

Bruna voltou para Franca (SP), sua cidade natal, e passou a trabalhar na área de comunicação de uma cooperativa de café.

Parecia o começo de duas carreiras no jornalismo. Mas o café, presente na família de Bruna há quatro gerações, acabaria mudando os planos dos dois.

Bruna cresceu no Sítio Capoeira, propriedade da família, mas conta que, na época em que precisou escolher uma profissão, permanecer no campo estava longe de ser o caminho mais estimulado pelos pais.

Segundo ela, a orientação dentro de casa era praticamente: “Pode ir enquanto é tempo”. A agricultura ainda era vista como uma atividade dura, incapaz de oferecer aos filhos uma vida confortável.

Uma cafeteria para voltar às origens.

Mesmo trabalhando com comunicação, Bruna queria se aproximar do negócio da família. O problema era que, naquele momento, o sítio não comportava mais um salário.

A solução surgiu justamente do produto que acompanhava sua família havia gerações: o café.

Em 2011, ela deixou o emprego e criou o Olinto Café, em Franca. A cafeteria surgiu como uma forma de diversificar a atividade e, ao mesmo tempo, construir um caminho próprio dentro de uma cadeia que Bruna conhecia desde criança.

Enquanto ela mudava de rumo, Tadeu continuava ligado ao jornalismo. E, antes de se tornar também parceiro de negócios, precisou reconquistar a própria namorada.

Cansada do namora à distância, Bruna decidiu terminar o relacionamento com Tadeu em 2011.

Mas um ano depois, os dois reataram. Então, Tadeu deixou Bauru para viver com ela em Franca e dois se casaram.

A ideia inicial de Tadeu era continuar trabalhando como jornalista, mas a dificuldade de encontrar oportunidades na área de comunicação na cidade o aproximou da cafeteria.

Primeiro, ajudando Bruna e depois cada vez mais envolvido na operação. No entanto, abandonar a carreira que havia escolhido não foi simples.

Por alguns anos, Tadeu ainda conciliou trabalhos como freelancer na antiga área com a administração da cafeteria. Aos poucos, percebeu que a comunicação não precisava desaparecer de sua vida.

A aceitação definitiva demorou. Segundo ele, durante anos praticamente não havia um dia em que não falasse sobre a antiga editora. Foi somente a partir da pandemia que conseguiu assumir para si mesmo uma nova identidade profissional: “Eu sou cafezeiro”, diz ele orgulhoso.

Dos cafés especiais à própria lavoura.

A chegada de Tadeu coincidiu com outra transformação. Um produtor da região apresentou ao casal o universo dos cafés especiais.

Até então, Bruna trabalhava com café gourmet adquirido da cooperativa. Eles começaram a estudar o segmento, realizar degustações e levar consumidores ao campo para mostrar de onde vinha o produto.

Segundo o casal, entre 2012 e o início de 2013, o Olinto se tornou a primeira cafeteria da Alta Mogiana e uma das pioneiras do interior paulista a trabalhar com cafés especiais.

Anos depois, chegaram a reunir cerca de 70 marcas da região nas prateleiras.

Curiosamente, faltava uma marca: a deles próprios. “A gente tinha síndrome de vira-lata mesmo. A gente achava que o nosso café não era capaz.”.

Foi somente a partir de 2016 que começaram a torrar o café produzido pela própria família. Antes disso, em 2014, Bruna e Tadeu haviam dado outro passo importante: plantaram juntos sua primeira lavoura.

Hoje, a estrutura montada pelo casal envolve cafeteria, torrefação, turismo ligado ao café e participação em eventos, além da produção no Sítio Capoeira. Mas o crescimento esteve longe de acontecer em linha reta.

?A gente gastou muito dinheiro errado”.

Bruna não esconde os erros dos primeiros anos. “Comecei um negócio do nada. Estudei muito, me preparei muito, sim. Só que o dia a dia, a realidade é outra coisa.”.

O casal investiu, expandiu, abriu uma segunda unidade e chegou a apostar em uma fábrica de pães que não funcionou como esperava. “A gente gastou muito dinheiro errado”, lamenta ela.

Um dos golpes mais duros ocorreu por volta de 2018. Segundo Tadeu, a cafeteria perdeu praticamente ao mesmo tempo dois grupos importantes de consumidores após mudanças de endereço de empresas próximas a cafeteria.

O resultado foi uma queda de aproximadamente 45% no faturamento.

Quando finalmente começavam a colocar novamente as contas em ordem, veio 2020. Pouco antes da pandemia, o casal havia formatado o Olinto para franquias. Tinha três unidades e estava praticamente acertada a abertura de mais uma loja em Franca.

A reunião para fechar o primeiro contrato de franquia estava marcada para 20 de março de 2020. Foi justamente quando tudo fechou.

O potencial franqueado desistiu, outro empreendimento relacionado ao projeto não avançou e o plano de franquias foi abandonado. Uma das lojas permaneceu seis meses sem abrir as portas.

Inicialmente, Bruna e Tadeu decidiram manter os funcionários, mesmo sem operação normal. “A gente quebrou.”, lembra ele.

As consequências financeiras se arrastaram muito além do período mais crítico. Segundo o casal, somente a partir de 2023 o cenário começou a melhorar, e algumas contas originadas naquele período ainda continuavam sendo pagas.

Pouco antes da Covid-19, outra tragédia havia atingido o negócio: um incêndio na cozinha do Olinto. O que parecia apenas mais um problema acabou ajudando o casal meses depois.

A indenização do seguro chegou já durante a pandemia e serviu para bancar parte das despesas quando as receitas despencaram.

A crise também empurrou Tadeu para uma atividade que ele até então tinha receio de assumir. Ele havia comprado um torrador pouco antes da pandemia, mas ainda não se sentia seguro para comercializar o próprio café em uma região conhecida pela excelência na produção.

Sem muitas alternativas, começou a torrar. Hoje, além do próprio produto, a estrutura presta serviço para terceiros. Aquilo que nasceu em meio à necessidade se tornou mais um braço do negócio.

Se administrar um pequeno negócio já era difícil, havia outro componente: os sócios eram marido e mulher. E os dois admitem que a experiência quase custou o casamento.

Sem uma divisão clara de comando, decisões empresariais invadiam a vida pessoal. Discussões começavam no trabalho e continuavam dentro de casa. “A gente quase divorciou umas dez vezes”, admite Tadeu.

A solução não foi deixar de trabalhar juntos. Foi descobrir como trabalhar juntos. Bruna voltou sua atenção principalmente ao Sítio Capoeira, enquanto Tadeu assumiu a linha de frente do Olinto.

Cada um passou a ter autonomia sobre sua área. “Quando cada um rema para um lado, o barco gira em círculo”, compara Tadeu.

Hoje, quando Bruna participa de uma ação da cafeteria, Tadeu dá a palavra final. Quando a decisão envolve a produção rural, acontece o contrário.

A mudança, segundo eles, teve efeito tanto financeiro quanto pessoal. O casal relata que o Olinto chegou a passar cerca de seis anos utilizando cheque especial como fluxo de caixa.

Com a reorganização, sítio e cafeteria começaram a ganhar eficiência. O casamento também mudou. “Hoje eu me sinto recém-casado”, brinca Tadeu.

A família que não estava nos planos.

Talvez a maior transformação da trajetória de Tadeu, no entanto, não tenha acontecido nem no jornalismo nem no café. Aconteceu quando ele se tornou pai.

O casal tentou inicialmente ter filhos biológicos. Diante das dificuldades e dos custos de um tratamento de fertilização, voltou-se para uma possibilidade que já fazia parte das conversas entre os dois havia muito tempo: a adoção.

Entraram na fila e, aproximadamente um ano depois, conheceram Jonatas, então com 3 anos e 8 meses. Depois, decidiram iniciar um segundo processo. A nova espera começou em dezembro de 2019, atravessou a pandemia e durou cerca de quatro anos.

Dessa vez, esperavam inicialmente uma criança. Até ampliarem o perfil para aceitar irmãos. Vieram duas meninas: as irmãs Maria Rita e Karolina.

Assim, Bruna e Tadeu se tornaram pais de três. Para alguém que havia imaginado para si uma vida completamente diferente, a transformação foi radical. “O meu projeto de vida era ser jornalista solteiro, viajar o mundo.

Filho, família e casamento tradicional não estavam nos meus planos. Empreender não estava nos meus planos.”, afirma Tadeu.

Foi Bruna, diz ele, quem começou a mudar essa perspectiva. “Quando a Bruna terminou comigo, eu entendi que a minha vida fazia mais sentido quando ela estava junto.

E eu vim para cá [Franca] e falei: talvez por ela eu queira encarar esse projeto de família.”.

Agora, o desafio é “equilibrar os pratinhos”.

Depois de tantos problemas empresariais, Tadeu diz que sua maior dificuldade atualmente não é exatamente financeira. É conciliar as diferentes versões de si mesmo.

A agenda de eventos frequentemente o leva para longe de Franca. Em uma das viagens recentes ficou quatro dias fora de casa. Enquanto gostava do trabalho que estava realizando, recebia mensagens dos filhos dizendo que estavam com saudade.

Bruna cresceu ouvindo que deveria estudar para sair do campo. Hoje, voltou ao Sítio Capoeira e participa justamente de um processo de sucessão familiar.

Na propriedade estão diferentes gerações de mulheres da família: a avó de Bruna, com 104 anos, sua mãe, ela própria e a irmã.

Bruna define o processo atual como uma espécie de “sucessão do amor”: aquela realizada enquanto os pais ainda estão presentes, permitindo que a geração seguinte aprenda gradualmente a administrar o patrimônio e a atividade.

É diferente, diz ela, da “sucessão da dor”, quando a morte de um familiar obriga alguém a assumir repentinamente uma operação que ainda não conhecia.

E a mais nova geração da família já circula entre a lavoura e as xícaras. Jonatas cresceu dentro da cafeteria e, aos 13 anos, já sabe preparar expresso. Karolina e Maria Rita acompanham Bruna durante as manhãs no sítio antes de irem para a escola.

Bruna aposta que Jonatas poderá ficar ao lado do pai na cafeteria e as meninas, com ela, no campo. Tadeu faz uma divisão ligeiramente diferente: imagina Carol com Bruna no sítio e Maria ao lado dele.

Depois de 15 anos de Olinto Café, os planos continuam grandes, embora agora sejam diferentes para cada um.

Tadeu pretende ampliar o braço de eventos e levar o negócio para fora do Brasil. A meta é começar a realizar eventos internacionais ligados ao café.

Na cafeteria, a possibilidade de franquias voltou à mesa. O projeto já está estruturado, mas depende primeiro de colocar uma das unidades em ordem. Bruna olha para outra direção: quer ampliar a produção.

Apesar de estar inserido em uma família produtora há gerações, o casal ainda não possui uma área própria. A lavoura que explora atualmente é arrendada e a casa onde vive foi construída em terreno da família de Bruna.

Por isso, um dos principais sonhos é comprar terra. “A ideia é a gente ter uma terra nossa e trabalhar.” Para Bruna, aumentar a área produtiva significa dar escala ao negócio, mas também construir segurança para a família.

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